Introdução ao Oriente e uma aventura no serviço nacional de saúde equatoriano | Introduction to the East and an adventure in the ecuatorian national health service

Tudo parecia outro Equador assim que a altitude baixou dos mil metros. A temperatura subiu e os banhos de água fria passaram de temidos a desejados, as casas passaram a ser de madeira, muitas com jardins à frente, o azul do céu transformou-se magicamente em bebé, os indígenas andinos desapareceram totalmente, as peles escureceram e a pronúncia alterou-se.

Mas a maior diferença veio mesmo da vegetação, dos rios, dos animais ao nosso redor e também do calor húmido que passou a acompanhar-nos dia e noite, dispensando o uso das roupas quentes que nos tinham acompanhado nas últimas semanas.

Em Puyo, depois de um farto pequeno-almoço de bolones com chicharrones (bolos fritos de banana com torresmos) despedimo-nos a custo do Luciano e da Sol e passámos o resto da manhã em frente a uma loja de bicicletas, onde o Pedro meteu mãos à obra para substituir o eixo da roda dianteira que se tinha partido. Dez quilómetros depois parávamos para almoçar e descansar, apenas para de novo enfrentar o calor da tarde. Numa paragem para um litro e meio de coca-cola um curioso após algumas trocas de palavras logo disse “hoje está muito calor”, ao que eu perguntei se não era sempre assim nesta época, recebendo como resposta “sim, e às vezes também chove!”

Parámos mais à frente numa pequena pensão onde ficámos a saber que os donos tinham chegado ali há uns anos vindas de outra parte do Equador e que eram conhecidas entre a população como colonizadores. Também disse a senhora que foi uma sorte termos parado ali já que mais para a frente só havia índios e que estes não seriam tão hospitaleiros. No dia seguinte, uma das primeiras pessoas que vimos foi um índio que de forma simpática nos perguntou de onde vínhamos, se queríamos descansar e quando regressávamos.

O dia passou difícil, ainda não estávamos adaptados ao calor e colocámos como objectivo Macas, a quase noventa quilómetros de distância. Pelo caminho encontrámos dois jovens belgas de dezoito anos que tinham começado o seu percurso na Colômbia. Juntos pernoitámos nos bombeiros no dia seguinte eles continuaram e nós, por via da minha má disposição e desarranjo intestinal resolvemos ficar mais uma noite que se havia de prolongar em três dias numa autêntica aventura no sistema nacional de saúde equatoriano.

Na descida para Puyo tinha-me entrado um insecto no olho tendo deixado uma pequena mancha negra, talvez o próprio mosquito, talvez um coágulo, fruto da violenta pancada. Certo é que passados três dias não havia maneira de me curar e resolvemos ir ao Centro de Saúde. A médica ‑ super simpática ‑ bem me observou e disse que tinha um corpo estranho mas que não tinha o equipamento apropriado para mo extrair pelo que me deu umas gotas e recomendou que as pusesse a cada quatro horas para “amolecer” e no dia seguinte fosse ao hospital para mo tirarem.

Amanheci sem sinais de melhoria pelo que nos dirigimos às urgências, onde a espera era feita debaixo do telheiro onde chegavam as ambulâncias e não havia triagem nem senhas, mas quem ia chegando depressa descobria a sua ordem. Pouco depois de uns quarenta minutos de espera entrei e começaram por me pesar, medir a tensão e a temperatura, enquanto eu ia explicando ao que vinha. Aparentemente também não havia o aparelho adequado à remoção do corpo estranho mas a médica disse que me iriam fazer uma lavagem ao olho e, caso esta não resultasse, teria que passar para o serviço de oftalmologia na segunda-feira (era um sábado). Deitada na maca, aguardando o meu destino, observava a médica a ir buscar o material necessário para a dita lavagem, quando esta foi chamada para uma urgência, e a colega que veio em sua substituição, com muito pouca vontade de me atender, disse a um dos enfermeiros para me remover o corpo estranho.

Este último profissional esforçado, mas sem a totalidade das instruções, olhou para a mesa que tinha metade do material necessário e perguntou se deveria usar um cotonete, ao que a médica, distraída com qualquer outro assunto respondeu que sim. Não foi de modas e toca de me enfiar a seco um cotonete no olho, sem qualquer tipo de resultado que não a moléstia do meu órgão visual. Resolveu então tomar o assunto em rédeas e voltou com uma seringa, da qual cuidadosamente retirou a agulha, e depois dirigiu-se a mim dizendo “vou usar esta agulha para tentar retirar o que tem no olho, como deve imaginar posso magoá-la e por isso preciso que abra bem o olho e não se mexa”. Foi nesta altura que eu, que nestes assuntos de saúde me largo nas mãos de quem me atende com a maior boa-fé, vendo-me na iminência de ter um olho furado, resolvi intervir e dizer “mas acho a doutora disse que era para fazer uma lavagem ocular”. Suspirando o enfermeiro pediu à médica de serviço para confirmar a minha recente informação, à qual ela anuiu, e lá se pôs em campo para reunir os elementos em falta.

A quem nunca fez uma lavagem ocular, desde já esclareço, do topo da minha ignorância, que, pelo menos no Equador, consiste numa determinada quantidade de soro, jorrada para para dentro do olho através de uma seringa posicionada mais ou menos a 4 cm de distância, enquanto o paciente agarra o olho e o abre o mais que consegue (valeram os anos de treino a usar lentes de contacto).

Acho que o enfermeiro ainda ficou mais contente que eu, quando a asa do insecto se descolou da iris e saiu pela lateral tipo lágrima, facto que notei pelo ar entusiasmado com que gritou: “saiu, saiu!” e depois me mostrou com todo o cuidado o corpo estranho que me havia incomodado nos últimos quatro dias. Pelo meu lado não sei se fiquei mais feliz com o resultado positivo da operação, se com a sensação de alívio de não ter uma agulha a arranhar-me o olho.

Certo é que com todo este atendimento não foi preciso pagar um tostão e isso me deixou feliz por todos os equatorianos que têm acesso gratuito à saúde, ainda que com um percalço ou outro.

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Everything seemed a different Ecuador as soon as the altitude dropped to the thousand meters. The temperature rose and the cold water showers went from feared to desired, some houses were made of wood, with many gardens at the front, the blue sky became magically soft, the Andean indigenous disappeared completely, the skins darkened and the pronunciations changed.

But the biggest difference came in the form of vegetation, rivers and animals around us and also of the humid heat that accompanied us day and night, without the need of warm clothing which has been with us in recent weeks.

In Puyo, after a hearty breakfast of bolones with chicharrones (fried banana cakes with pork rinds) we said goodbye to Luciano and Sol and spent the rest of the morning in front of a bicycle shop, where Pedro replaced the front wheel axle that was broken. Ten kilometers later we stopped for lunch and rest, only to again face the heat of the afternoon. We stopped for a liter and a half of coca-cola and curious local after some small talk said “today’s hot”, when I asked if it was always like that in that season he said “yes, and sometimes it rains!”

We stopped later in a small hote where we learned that the owners had arrived there a few years coming from another part of Ecuador and were known among the population as settlers. The lady also said told us we were lucky because we were about to enter in indigenous territory and they might not be so friendly. The next day, one of the first people we saw was an indigenous who nicely asked us where we were from, if we wanted to rest and when we were returning there.

The day went hard, we were not yet adapted to the heat and we put aim to Macas, almost ninety quilometers away. Along the way we found two Belgian young cyclists of eighteen who had started its journey in Colombia. We spent the night together in the fire station and on the next day they continued and we, due to my sick and intestinal problems, decided to stay another night that we had to extend to three days in an authentic adventure in the Ecuadorian national health system.

On the way down to Puyo I (Sara) had a mosquito entering my eye and leaving a small black spot, perhaps the mosquito itself, perhaps a clot. After three days there was no way for me to heal and we decided to go to a health center. The super friendly doctor watched me and said I had a foreign body in the eye but she didn’t had the proper equipment to extract it so she gave me some drops and recommended that I put it every four hours for “softening” and on the next day I should go to the hospital to take it off.

I woke up with no signs of improvement so we head to the emergency room, where the wait was made under the carport where ambulances arrived and there was no calling or ordering system whatsoever, but as we arrived we quickly discovered our place on the line. After about forty minutes of waiting I went in and firsts they weighted me, measured my tension and my temperature, while I was explaining what had happened to me. Apparently there was also a lack of the proper ophthalmological instruments at the emergency room but the doctor said they were going to make a wash of the eye and if that didn’t work I would have to come back Monday (it was Saturday) to go to the ophthalmology service. Lying on the table awaiting my fate, I watched the doctor getting the necessary material to make the wash when she was called to an emergency, and her colleague took her place, with little desire to assist me, so she told one of the nurses to remove the foreign body.

The latter, an endeavored professional, but without all the instructions, looked at the table that had half the necessary material and asked if he should use a cotton swab to the doctor, distracted by any other matter she answered yes. So he just grabbed a dry cotton swab and sticked it in my eye, without any result other than hurting my visual organ. Then he decided to take matters into reins and returned with a syringe and carefully removed the needle, and then spoke to me saying “I’ll use this needle to try to remove what’s in the eye, as you can imagine I can hurt it and so I need you to open the eye and do not move” It was then that I, that usually on the health issues don’t ask to much and lay myself on the hands of the professionals who are taking care of me, decided to step in and say “but I think the doctor said you are going to make an eye-wash”. Sighing the nurse asked the doctor to confirm my recent information, to which she nodded, and so he started gathering all the needed material that was still missing.

To those who never had their eyes washed let me explain to you, from the top of my ignorance, that, at least in Ecuador, it consists in a certain amount of serum, jetted to into the eye through a syringe positioned about 4 cm away while the patient grabs the eye and opens it as much as possible (for me it was easy from all the years using contact lenses).

I think the nurse was even more excited than me, when the insect wing came off the iris and out the side tear type, he screamed, “it’s out, it’s out!” and then showed to me with all the care the foreign body that had been bothering me for the last four days. For my part I do not know if I was happier with the positive result of the operation, or with the sense of relief for not having a needle scratching my eye.

One thing is for sure, all the medical was given for free and it made me happy that all Ecuadorians have free access to health, although with some mishaps on the way.

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