Fast forward

O tempo nas praias brasileiras não nos tem permitido actualizar o blog como gostaríamos e, quanto mais tempo passa mais esmorece o entusiasmo para relatar acontecimentos de Novembro e Dezembro do ano passado. Assim sendo, aqui fica um pequeno resumo do que nos aconteceu entre Macas no Equador e Lima no Perú.

 

Na Amazónia

Depois do episódio no serviço nacional de saúde, chegou finalmente a altura de metermos o pé na estrada e disfrutar da Amazónia. Sim, podem ser os subúrbios da maior selva mundial, mas não deixa de ser a Amazónia.

Supostamente deveria ser plana, mas não, as subidas íngremes e a altitude, embora nunca acima dos 1200 metros, ainda não tinham ficado para trás, e ainda bem! A cada subida alcançada a vegetação ia-se alterando, mas sempre sem perder a sua enorme densidade e verde intenso. As povoações eram esparsas e distantes, a abundância de restaurantes tão típica de outras localidades acabou e um dia ficámos sem almoço até às quatro da tarde, embora numa pequena aldeia várias pessoas nos tivessem garantido que mais à frente, já ali na próxima curva, havia um restaurante. Resultado? Ficámos alimentados a doces e snacks e com um humor de cão até chegar a Limón.

Fomos passando aldeias de nomes estranhos como Yantzaza e Gualaquiza, terras de minas de ouro, e cada vila parecia modelo da anterior, a igreja, de arquitectura moderna e pouco convencional, com as cenas de Cristo adaptadas à selva, o jardim principal, arranjado com um pormenor e organização, em pleno contraste com a vegetação local, e a câmara municipal, um edifício gigante, muitas vezes espelhado, constantemente deslocado quando tudo ao redor são casinhas pequenas e simples de, no máximo, dois andares, com certeza manifestações exageradas do poder local.

Foram seis dias de calores tropicais, um dia de chuva torrencial, de dezenas de borboletas coloridas que nos rodeavam as bicicletas, de um banho de rio a meio do dia, de forma espontânea e só porque sim, da passagem de muitas e muitas pontes tal a abundância de água, de insectos esquisitos e gente simpática.

No final esperava-nos uma subida de quase dois mil metros para voltar ao topo dos andes mas o tempo era já pouco para apanhar o avião pelo que apanhámos um autocarro que nos levou directamente para Loja, por um fantástico caminho repleto de cascatas.

 

Em Loja

Tinham-nos falado bem da cidade, mas depois de já termos visto tanta coisa não chegámos a entusiasmar-nos. Tomámos bons pequenos-almoços nos mercados, observámos a agitação típica de uma cidade estudantil, visitámos o parque da cidade, repleto de miniaturas onde é possível brincar, como a Torre Effeil ou uma mesquita árabe, passeámos pelo mercado de domingo, ficámos num hotel que tinha um néon cor-de-rosa a dizer hotel (um sonho cumprido com o qual me podia deleitar toda a noite já que a nossa janela ficava mesmo ao lado), comemos uma espécie de bola de berlim, e também a especialidade local, uma deliciosa pasta de amendoim com açúcar, e essencialmente descansámos e preparámos a nossa entrada no Perú.

 

Uma longa viagem e a fronteira maldita

Bilhetes de avião para o Brasil em sete dias e mais de mil quilómetros pela frente fizeram-nos decidir avançar de autocarro numa longa viagem entre Loja, no Equador até à capital do Perú, Lima.

A coisa começou bem quando o primeiro autocarro nos apareceu antigo, mal tratado e com uma bagageira mínima para as bicicletas e todo o nosso equipamento. Sob stress e os gritos do ajudante do motorista o Pedro lá tirou rodas e enfiou, como pôde, e com o coração nas mãos, a prever todas as curvas do caminho e batidelas da viagem, as nossas meninas no bagageiro. Depois regateámos o preço de transporte das mesmas e seguimos viagem pelo caminho de cinco horas que tínhamos planeado fazer de bicicleta. Felizmente não o fizemos, era seco, desértico, monótono, muito quente e ter-nos-ia levado cinco dias ou mais a completar. Tais condições quase nos deixaram contentes face à falta de ar condicionado e música popular aos berros no rádio que nos acompanharam durante toda a viagem. Depois de uma breve paragem para almoço andámos uns cinco quilómetros e o motorista abriu a porta sem qualquer tipo de aviso junto à fronteira.

Saímos então do autocarro e tramitámos a saída de forma rápida, e até favorecida pelo facto de sermos estrangeiros, com direito a cadeira e entrada no gabinete para nos escondermos do sol infernal. Atravessámos a ponte que passa sobre o rio que divide a fronteira e estávamos já no lado Peruano. Um amontoado de gente não saía da frente do guichet, mas desvalorizando o facto fui-me acercando para pedir os formulários e depois dirigi-me ao fim da fila, que estava bem composta.

De repente alguém disse às oito jovens adolescentes que estavam à nossa frente que não precisavam de ficar ali e automaticamente a fila diminuiu. Foi aqui que começou o drama, quando começámos a falar com o senhor da frente e percebemos que ele estava ali desde as oito horas da manhã (era naquela altura meio dia e meia). Pois então, uma delegação de cerca de 300 adolescentes e respectivos acompanhantes adultos, estavam a sair do Perú para participar num encontro desportivo e o funcionário da fronteira tinha que verificar autorizações parentais de saída do país autenticadas de cada um deles, o que fazia sem qualquer tipo de pressa e ao ritmo normal de uma fronteira aparentemente pouco utilizada. Por sorte, passado pouco tempo houve troca do funcionário, e este último um pouco mais rápido, lá foi despachando papéis a uma velocidade mais aceitável.

Do lado de fora o calor era forte, com temperaturas na ordem dos trinta e oito graus e o sol forte do deserto fazia-nos ficar colados uns aos outros em busca de protecção nas poucas sombras existentes. Em frente ao guichet reinava a confusão, uns refilavam com o tempo ali passado, outros exigiam prioridade por estarem de autocarro e prestes a perder a ligação a destinos mais longínquos.

A situação foi-se adensando, cada uma das pessoas na primeira linha do magote junto ao guichet representava dez ou doze alunos, os outros todos, atrás assistiam tensos ao desfecho e tentavam entregar os seus documentos. A certa altura, depois de despachar a maioria do grupo grande, começou a vez dos individuais, o oficial da fronteira agarrava num formulário e respectivo documento de identificação, fazia o registo, enquanto cá fora tudo ficava silencioso. Assim que se ouvia o carimbo, toda a gente levantava os braços em direcção à janela e dizia algo semelhante a “apanhe o meu, por favor!”. Era então escolhido ao acaso novo passaporte e a rotina prosseguia até que, por qualquer inexplicável razão, o oficial da fronteira resolveu dizer que só atendia se fosse formada uma fila, e que não recebia conjuntos de documentos (tinha sido feita uma tentativa pelas pessoas dos autocarros de colocarem um dos passageiros à frente com os formulários dos restantes), a passagem na fronteira tinha que ser individual.

Em resposta às ordens, as pessoas compactaram-se ainda mais e disseram que já estavam em fila. O Pedro já nessa altura estava colocado de um dos lados da janela, aguardando silenciosamente a sua vez, vendo que outros documentos eram arrebanhados em vez dos nossos lá resolveu falar e dizer: “o senhor disse que era para fazer uma fila, eu fui o único que cumpri, e agora toda a gente passa à frente, é inadmissível”. Em resposta o funcionário disse que realmente era assim na América do Sul, uma grande desorganização, mas de seguida pegou no passaporte do Pedro e fez as habituais perguntas como se só estivéssemos ali nós. Carimbou o passaporte e com um sorriso disse “bem-vindos ao Perú!”. Quando os abrimos para verificar se estava tudo bem nem queríamos acreditar, teríamos 183 dias para visitar o país.

Eventualmente toda a gente do autocarro conseguiu voltar com a sua entrada no país devidamente legalizada e velozes seguimos por uma estrada ainda mais desértica que no Equador, cheia de bairros pobres, com casas feitas de madeira e palha, num estilo que ainda não tínhamos visto antes. Impressionou-nos a aridez mas também umas árvores sem folhas integralmente verdes, do tronco ao mais fino dos ramos.

Uma barreira e revista policial fez aumentar a nossa tensão. Esta viagem de autocarro terminava em Piura, uma das cidades mais perigosas da costa do Norte do Perú, e se não chegássemos a tempo de apanhar o transporte seguinte talvez tivéssemos que andar à procura de sítio onde ficar na escuridão da noite, cenário que queríamos evitar o mais possível.

Felizmente parece que o motorista também não queria chegar de noite e acelerou o suficiente para chegar ainda de dia a uma cidade que à primeira vista parecia bem pacata e sem perigo de maior. Acho que nunca montámos as bicicletas e os alforges tão depressa e rapidamente nos pusemos a caminho do terminal da companhia Cruz del Sur (nalgumas cidades cada companhia tem o seu próprio terminal), a menos de dois quilómetros de distância. O trânsito era bastante caótico mas mesmo assim chegámos sem problemas, poucos minutos antes do sol se pôr. Com o devido pagamento acomodámos as bicicletas e toda a nossa bagagem e entrámos no luxuoso autocarro, com internet, tablet em cada lugar, almofada, jantar, pequeno-almoço, cadeira reclinável, espaço e um hospedeiro que até fez um bingo.

Quando o autocarro saiu do terminal era noite cerrada e não se via uma única luz do lado direito, onde nós estávamos, no dia seguinte percebi porquê. Circulávamos em pleno deserto com o Pacífico do lado direito, nalguns sítios havia lindas dunas, noutros fábricas e casas, mas o momento mais assustador foi passar na estrada construída em cima da duna, uns cem metros acima do mar, com o precipício mesmo ali ao lado. Felizmente não aconteceu nada e depois de dezassete horas de viagem, duas das quais no trânsito dentro da cidade, primeiro junto a favelas, depois em bairros mais modernos, chegávamos ao final da primeira etapa da nossa viagem, Lima!

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Our time on the Brazilian beaches has enabled us from updating the blog as we would like, and the more time passes more the enthusiasm to report events from November and December dampens. So, here’s a short summary of what happened in between Macas in Ecuador and Lima in Peru.

 

In the Amazon

After the episode in the national health service, finally it was time to hit the road and enjoy the Amazon. Yes, it may be the suburbs of the world’s largest jungle, but it is still the Amazon.

It was supposed to be flat, but no, the steep hills and the altitude, although never above 1200 meters, had not fallen behind, and we liked it! Every climb brought some sort of change on the vegetation, even though it never loosed its enormous density and intense green. The settlements were sparse and far apart, as were the restaurants, so one day we were left without lunch until four in the afternoon, although at a small village several people had assured that on the next turn there would be a restaurant. The result? We had sweets and snacks and we entered Limón in a terrible humor.

We were passing villages of strange names like Yantzaza and Gualaquiza, land of gold mines, and every village seemed like a model to the next one, the catholic church, with modern and unconventional and unconventional arquitecture, with scenes of Christ adapted to the jungle, the main garden, arranged with detail and organization, in full contrast with the local vegetation, and the town hall, a giant building, often mirrored, totally exaggerated, especially when compared with the simple and small houses of a maximum of two floors.

It was six days of tropical heat, a day of torrential rain, dozens of colorful butterflies around our bicycles, a river bath in the most lovely landscape in the middle of the day, spontaneously and only because we wanted, the passage of many, many such bridges such is the huge amount of water, weird insects and nice people.

At the end waiting for us there was a climb of two thousand meters to go back to the top of the Andes but we didn’t had much time to take the airplane so we took a bus that took us directly to Loja on a fantastic road filled with waterfalls. 

 

In Loja

We had been told good things about the city, but after having seen so many things on the trip enthusiasm about it was week. We had great breakfasts at the markets, we observed the typical hustle and bustle of a student city, we visited the city park, full of places miniatures where people can play such as the Effeil Tower or an Arab mosque, strolled by the Sunday market, we stayed in a hotel that had a pink neon pink saying hotel (another dream fulfilled with which I could delight all night as our window was right next to it), we ate pastry, and the local specialty, some delicious peanut butter with sugar, and essentially rested and prepared our entry into Peru.

 

A long journey and a damned border

Airline tickets to Brazil in seven days and more than a thousand kilometers ahead made us decide to proceed by bus on a long journey between Loja, Ecuador to the capital of Peru, Lima.

It didn’t started so well when the first bus appeared old, badly treated and only with a small trunk for bikes and all our equipment. Under stress and with the driver helper screaming Pedro took out the wheels and slipped, as he could, and thinking how bad the bikes could turn out at the end of the trip, our girls at the trunk. After haggling for the price of the transport we traveled for five hours in a road we had planned to go on bike. Fortunately we didn’t, it was dry, desert, drab, very hot and it would have taken us five days or more to complete. Such conditions almost left us happy with the lack of air conditioning and popular music blaring on the radio that accompanied us throughout the journey. After a brief break for lunch the bus rode about five kilometers and the driver opened the door without any warning at the border.

So we left the bus and tour exit stamp was quickly granted and we even were favored by the fact of being foreigners, we were given a chair to sit down and were able to enter the office to hide from the infernal sun. Then we crossed the bridge over the river that divides the border and we were on the Peruvian side. Crowds of people gather around the office window but I didn’t care and approached it to ask for the immigration forms and then I went to the end of the line which was kind of big.

Suddenly someone said to eight young adolescents who were in front of us that they did not need to stay there and the queue automatically decreased. It was then that the drama began, when we started talking to the people in front of us and realized they were there since eight o’clock in the morning (at that time it was noon and a half). Seemed like a delegation of about 300 teens and their teachers, were leaving Peru to participate in a sporting event and the border official had to check certified parental authorizations for leaving the country, which he made without any hurry and at the normal rhythm of an apparently little used border. Luckily, after a while there was an exchange of official, and the latter was a bit faster, so he started dispatching people at a more acceptable speed.

Outside the heat was strong, with temperatures of around thirty-eight degrees and the strong desert sun made us stuck together for protection on the few shadows. In front of the window confusion reigned, some people were very unhappy for all the time they had spent there, others claimed for priority because they were on a bus and they were about to lose a connection to more distant destinations.

The situation became worst, each of the people in the first line represented ten or twelve students, all the others watched with tension and tried to deliver their own documents. At some point, after dispatching most of the large group, it was the turn of the individual ones, the official grabbed the forms and the identification document, made the record, while out there it was all quiet. As soon as the sound of the stamp was heard, everyone raised their arms toward the window and said something like “Take mine, please!”. Then the guy chose some random new passport and the routine continued until, for some inexplicable reason, the  border official decided to say that he would only continue if a queue was formed, and he would not not receive documents in sets (an attempt by the people who were on the same bus of placing one of the passengers ahead with the forms of all the other) passengers, the border crossing had to be individual.

In response to orders, people compacted even further and said they were already in the queue. By that time Pedro was placed in one of the sides of the window, silently waiting his turn, but seeing that other documents were herded instead of ours he spoke up and said, “you said we had to form a line, I was the only who did it, and now everybody is passing me, it is inadmissible. “In response, the official said it was like that in South America, very disorganized, but then he took Pedro’s passport and asked the usual questions as if we were the only ones there. He stamped the passport and with a smile said “welcome to Peru!”. When we opened it to check if everything was okay we couldn’t believe, we would have 183 days to visit the country.

Eventually everyone got back on the bus with their entry legalized and the driver accelerated in an even more deserted road, full with poor neighborhoods with houses made of wood and straw in a style we hadn’t seen before. We were very impressed by the dryness but also by some trees completely green from the trunk to the thinner branches and without any leaves.

A police search increased our tension. This bus ride ended in Piura, one of the most dangerous cities in the Peruvian Northern Coast, and if we didn’t arrived in time to catch the next bus we might have to go looking for somewhere to stay already at night time, scenery we wanted to avoid as much as possible.

Fortunately it seems that the driver didn’t want to arrive by night any more then we did so he accelerated enough to still get to the city by the end of the day. I guess we never we set up the bikes and panniers so quickly and we set out to the terminal of Cruz del Sur company (in some cities each company has its own terminal), less than two kilometers away. The traffic was quite chaotic but we were able to reach it without any problems, a few minutes before the sunset. With the due payment we accommodated the bicycles and all our luggage and we entered the luxury bus, with internet, tablet in each place, pad, dinner, breakfast, reclining chair, space and a host who made a bingo.

When the bus left the terminal it was thick night and we could not see a single light on the right, where we were seated, the next day I realized why. We were crossing the desert with the Pacific on the right side. Some places had beautiful dunes, in other places there were factories and houses, but the scariest moment was passing on the road built on top of the dune, a hundred meters above the sea, with the cliff right there on the side. Fortunately nothing happened and after seventeen hours of travel, two of which in traffic within the city, first unto the slums, then with more modern neighborhoods, we reached the end of the first leg of our trip, Lima!

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