Uma fronteira marítima | A sea border

O calor e humidade acrescida dos últimos dias tem feito com que os nossos dias comecem cada vez mais cedo, tentando evitar a altura do dia em que o termómetro apresenta números quase pornográficos, ou, em não conseguindo evitar tal sofrimento, pelo menos chegar ao destino com tempo para descansar. Às vezes nem é preciso mexermo-nos para sentir o suor a escorrer pelo corpo, andar de bicicleta apenas se torna suportável pela ligeira brisa que criamos com o movimento.

Desta vez nem foi o calor que justificou tamanha madrugada, tínhamos que estar em La Unión entre as oito e as oito e meia para tratar dos procedimentos migratórios e depois embarcar no barco para a Nicarágua. Entre a casa do José e o porto estavam 42 Km que pedalámos o mais desenfreadamente que nos foi possível, entre as seis e meia da manhã e as nove.

Chegados ao molhe Coquitos rapidamente fomos encontrados pelo mestre do barco que nos enviou a tratar das formalidades de saída o país, para de seguida se poder tratar das formalidades do porto. Aproveitámos um intervalo no processo para comer as últimas pupusas e dirigimo-nos ao barco onde enfiámos bicicletas, alforges e demais sacos e saquinhos. Depois entrámos nós e ficámos uma hora à espera de mais uns passageiros que entretanto tinham chegado e foi preciso sacar um novo sastre (papel de autorização de saída do porto).

Mas o entretém que foi essa hora! Quando subimos para o barco, metade ainda assentava na areia, depois foi ver a maré subir e subir e ver a azáfama daquele porto, inúmeros barcos com passageiros, gente a levar mercadorias e às vezes outra gente em carrinhos, senhoras a vender tamales com água pela cintura e a entregarem-nos o troco em notas encharcadas de um dólar, homens com água até ao pescoço a guiar barcos e finalmente zarpámos.

Com cinco tamales para o farnel e o ar fresco da movimentação do barco na cara, de um lado e doutro uma passageira ia-nos apontando as diversas ilhas verdejantes enquanto dizia: “ali ainda é El Salvador”, “para aquele lado são as Honduras”, “em frente já se vê a Nicarágua”. Passado algum tempo o barco atracou numa das ilhas verdes por breves instantes, tendo deixado passageiros e mercadoria, depois foi a vez de um barco de pescadores vir buscar pão e finalmente, duas horas depois o embarque, foi a nossa vez. As palavras de ordem soaram da boca da D. Lila, a mesma senhora com quem tínhamos negociado o preço das viagens, “aqui a aduana é muito chata, atracamos na praia e tiram as vossas coisas!”.

E assim foi, uma praia deserta, sem ondas nem rebentação, a água quente, a areia a ferver e árvores a dez metros do mar que funcionavam como biombo para o resto da Nicarágua. Sentimo-nos um pouco como náufragos que vão dar à praia sem saber muito bem o que os espera. O barco partiu deixando-nos a nós e aos outros quatro passageiros de mochila, entre o riso e a desolação. Mas não chegou sequer a passar um minuto até que um oficial de emigração nos indicou o poste de controle, a uns 200 metros por entre o arvoredo, e assim entrámos triunfalmente na Nicarágua.

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The intense heat and the humidity of the last days made us start the days each time earlier, as we try to avoid the time of day when the temperature reaches almost pornographic numbers, or, if we can’t avoid that, at least we have some time to rest in the afternoon. Sometimes we don’t even need to move to feel the sweat dripping and riding a bike is only bearable due to the light breeze it creates with the movement.

This time it wasn’t even the temperatures who justified such an early start, we needed to be in la Unión between eight and eight thirty to deal with the border procedures and then board the boat to Nicaragua. Between Jose’s and the port were 42 Km that we cycled as fast as we managed, between six thirty and eight.

As soon as we arrived to the Coquitos’ jetty we were immediatly spoted by the captain of the boat who send us to the border offices to exit the country, so that he could then deal with the port formalities. We took advantage of the break to eat our last pupusas and then head to the boat where we put our bikes, panniers and all the other little bags. Then it was our turn to enter the boat and we waited for another hour because there were more passengers coming with us and the captain needed a new sastre (formal document to leave the port).

But what a pleasure it was that whole hour! When we got on the boat, half of it was still on the sand, then the tide started to rise and the port gained lots of life with several passenger boats, people taking goods and sometimes other people in small carts to the boats, ladies selling tamales with water till their waste, and giving us the change in totally wet dollar bills, men with water to their necks guiding boats around and finally it was our time to go.

With five tamales to have lunch and the fresh air caused by the boat movement, from one side of the boat to the other one of the passengers kept pointing and saying: “over there is still El Salvador”, “on the other side is Honduras”, “in front of us we can already see Nicaragua”. After a while the boat stopped in one of the green islands for a brief moment and let passengers and cargo out, then it was the turn of a small fishing boat to approach to get some bread and finally, two hours after leaving the port it was our turn. Mrs. Lila, the same lady with who we had negotiated the price of the trip said: “here the customs are very strict, we stop on the beach and you can take your stuff off!”.

And that was it, a deserted beach, without waves, with hot water, burning sand and trees ten meters from the sea, working as a wall to the rest of Nicaragua. We felt like castaways brought to the beach without knowing what’s coming ahead. The boat left leaving us and the four backpackers between laugh and desolation. But not even a minute passed until an emigration officer arrived and told us to go to the office 200 meters between the trees, and that’s how we entered Nicaragua.

 

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