O primeiro ano | The first year

Um ano são mais de um milhão de minutos, 1314000 precisamente. Este foi, tanto para mim como para a Sarita, o maior intervalo de tempo que estivemos consecutivamente fora de casa, e quase sempre bombardeados de novos estímulos, que naturalmente tomamos cada vez mais como habituais – o dia a dia. Trocámos as 9 às 5 pelos horários variáveis dependentes do sol e do calor, e as jornadas planeadas interrompidas pela chuva ou pelo mal estar, ou pela inexistência de uma travessa marítima. A cama variava também entre terra e colchões alheios, ora cedidos ora rentados, sem necessidade de voltear o colchão, pois mal dava tempo de aquecer quanto mais os moldar às nossas formas. Mas mais que tudo, a excitação do desconhecido tornou-se mais temperada com a experiência e é com menos temor e mais certeza que nos lançamos a uma nova fronteira (se bem que pela extensão dos EUA e México, até agora só temos 4 selos no passaporte), e chegamos mesmo a querer passar para outra realidade, cada vez com mais vontade. Os termos de comparação aumentam e (in)felizmente começámos com dois países extraordinários: o primeiro pelo calor humano, beleza natural e recursos intermináveis para cicloturistas, ideal para um par de jarras bem verdinhos nas lides das binas carregadas; e o segundo, apesar de ter estradas mais estreitas e menos cuidadas, presenteava-nos com sorrisos francos e descontraídos, uma cultura rica desdobrada em arquitetura colonial intemporal, arte mural épica e gastronomia rica e muito em conta. Assim, sobre os países que se seguiram sentimos que não estão à altura e que nós nos tornamos mais exigentes, o que se traduz numa vontade de seguir e de procurar um sítio mais acolhedor e confortável. Até quando?

Olhando para dentro, para nós como par, sinto que estamos num curso matrimonial intensivo. Estamos muito pouco tempo alheados um do outro e quando estou, sinto que mesmo esses instantes estão a ser desvalorizados por não ter a Sara a meu lado para os partilhar. Há uma constante atenção entre nós, e mesmo eu com o meu habitual mau feitio que de tanto em tanto não consigo reprimir, tento providenciar pacientemente o melhor em especial quando a Sarita mais precisa – cão que ladra não morde. E se este ano me mostrou algo, é que muito dificilmente encontraria alguém melhor para partilhar a aventura. E que a nossa vida seja uma enorme aventura.

Este ano também clareou o nosso caminho que aí vem. Mostrou-nos que há vida para além da bina, se bem que as binas são muito boas amigas, não compensa perder três dias consecutivos para fazer 60 km e no final estar exausto e muito desmoralizado, percorrer estradas perigosas ou ficar a meio da jornada sem mantimentos e continuar, por puro orgulho. Há imensos quilómetros para fazer para sul e saltar umas poucas centenas podem garantir muitos mais e que sejam prazerosos.

A meta inicial apesar de geograficamente mais perto está cada vez mais alheia. Uma reunião familiar em Londrina no Brasil, em Dezembro deste ano moldará o nosso trajeto, e na Bolívia provavelmente não seguiremos a  Pan-americana até ao Chile, mas seguiremos até ao Paraguai até Iguaçú, e daí entraremos em terras Brasileiras e voltaremos a falar português que não entre nós.

E que os países que se seguem a sul nos tragam gente sorridente, novas e surpreendentes culturas, e estradas belas com vento pelas costas.

Pedro Marques de Sousa

IMGP7546

A year are more than one million minutes, precisely 1314000. This was, both for me and Sara, the longer time we were consecutively away from home, and often bombarded with new stimuli, which we took more as usual as time went by – the day by day. We exchanged the 9 to 5 hours for dependent variables as the sun and the heat, and journeys planned were gingerly interrupted by rain or illness, or the absence of a sea crossing. The bed also varied between earth outside and mattresses inside, sometimes rented other times granted, without the need for turning them around, as it was barely enough time to heat it, even more scarcely we could mold it to our shapes. But most of all , the excitement of the unknown became more tempered with experience and is with less fear and more sureness that we launch ourselves into a new border (although due to the extent of the U.S. and Mexico, so far we only have 4 stamps in our passports), and got us to want to move on to another reality, with more and more eagerness. The terms of comparison increases and (un)fortunately we started with two extraordinary countries : the first for peoples warmth, natural beauty and endless resources for cyclists, ideal for a couple of fresh and inexperienced cyclists in the affairs of hauling heavy loaded bikes; and second , despite having roads narrower and less cared for, regaled us with frank and relaxed smiles, a rich culture unfolded in timeless colonial architecture, epic mural art and rich budgetwise gastronomy. Thus, on the countries that followed, it felt as they came short and we become more demanding, which translates into a willingness to follow and to seek a more welcoming and comfortable place. Until when?

Looking inside to us as a couple, I feel that we are in a marriage intensive course. We are very little time apart from each other and when it happens I feel that these very moments are being devalued by not having Sara by my side to share them. There is constant attention between us, and even I, with my usual bad temper that every so often can not repress, patiently try to provide her the best, especially when Sara needs it more – barking dog does not bite. And if this year has shown me anything, is that would be very difficult to find anyone better to share the adventure. And that our life may be a great adventure.
This year also cleared up somehow on the way to come. Showed us that there is life beyond the bikes, although they are very good , it’s not worth losing three consecutive days to do 60 km and in the end be very exhausted and demoralized; to go through dangerous roads or find ourselves in the middle of the journey without supplies and go on for pure pride. There are lots of kilometers to do towards the south and jump a few hundred can ensure many more and that they are delightful.

Although the original goal though is geographically closer, turns to be more and more far away. A family meeting in Londrina, Brazil in December this year will shape our path, and in Bolivia we probably will not follow the Pan American to Chile, but will follow up to Paraguay towards Iguazu, and then we will end up in Brazilian country and speak Portuguese that not only among ourselves.

And that the following countries south bring us smiling people, new  and amazing cultures, and beautiful roads with the wind at our backs.

Pedro Marques de Sousa

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