Semuc Champey e as soluções centro-americanas | Semuc Champey and Central American solutions

A chegada a Lanquin e a busca de um pequeno paraíso para dar descanso ao corpo e à alma trouxe consigo um amplo dia de dolce fareniente, passado entre boas comidas, baloiço na rede, banhos no rio e no romântico chuveiro com vista para o vale e muitas horas de conversa com o João, um português de Fátima, viajante à boleia ou de autocarro que também tinha uma louca ambição, chegar à Patagónia num ano e pouco. Tal como nós deixou-se conquistar pelas maravilhas de viajar lentamente e vai terminar em breve a sua viagem, depois de praticamente um ano e meio, na Costa Rica.

Mas a razão que nos tinha levado a enfrentar a dura prova dos dias anteriores e fazer um desvio na nossa migração para Sul estava a 10 Km dali e a uns meros 20 quetzais (cerca de 2 euros) de viagem na caixa de uma pick-up. E numa quente manhã de Domingo lá nos metemos ao caminho, depois de esperar quase uma hora para que a pick-up tivesse mais gente, e acabando por seguir com um senhor que tinha uma pequena banca junto ao parque nacional de Samuc Champey. Nesta zona da Guatemala não existem autocarros no verdadeiro sentido da palavra, o transporte é feito em carrinhas ou camiões de caixa aberta, onde as pessoas se vão encaixando muitas vezes junto com a mercadoria, e onde qualquer proprietário deste tipo de veículos se pode transformar temporariamente em motorista da Carris.

De acordo com alguns Chapins (Guatemaltecos) a quem dissemos que íamos a Samuc Champey, esta é uma das maravilhas da natureza, sendo que não há verdadeiro consenso quanto ao lugar que ocupa no ranking, algures entre o terceiro e o nono. Confessamos que não verificámos, mas esta beleza natural é provavelmente dos lugares mais bonitos onde já passámos.

Composto por piscinas (pozas), numa espécie de escada, e ligadas umas às outras por pequenas cascatas e rochas, assemelha-se a um parque aquático natural, que nos divertimos a explorar, passando de umas piscinas para as outras através das rochas ou escorregando nas pequenas cascatas, e aproveitar a relativa ausência de gente para gozar algumas das piscinas só para nós. O mais incrível é que esta obra da natureza é como uma ponte gigante, e por baixo passa sobre um rio que corre cheio de força, e para onde as águas da última piscina desaguam lentamente. Tudo isto no meio de duas escarpas incrivelmente verdes, cheias de vegetação e ao som de macacos gritadores.

Infelizmente as piscinas são feitas de calcário, um material frágil que se vai desfazendo ao longo do tempo, principalmente com a quantidade de visitantes que diariamente as pisam.

Ainda com o cansaço dos dias anteriores, assim que entrámos no parque vimos que era possível subir a um miradouro, numa caminhada de meia hora, e decidimos logo que nos ficávamos pelas piscinas. Provavelmente tanta diversão e puro gozo da natureza deram-nos a energia extra que necessitávamos e lá trepámos floresta acima para termos uma belíssima visão do conjunto.

Uns dias no paraíso foram suficientes para recuperar o nosso espírito, mas as montanhas da Guatemala levaram-nos a melhor e decidimos que, em primeiro lugar, vamos tentar livrar-nos de bastante peso, e em segundo, enquanto isso não acontecer não vamos andar a subir montanhas com gradientes de 14% só porque sim.

E foi assim que alegremente nos enfiámos num shuttle de oito horas, com destino a Antigua, a antiga capital deste país. A viagem não foi propriamente isenta de aventura, já que a Bella, uma escocesa viajante decidiu, na primeira paragem, mudar o seu destino final. E como é que isto se processa? O motorista, sem qualquer aviso prévio, e parando à beira de uma quase auto-estrada, anunciou “Xela” (diminutivo pelo qual é conhecida a cidade de Quetzaltenango), e a Bella em menos de nada arrumou as coisas que tinha espalhadas na sua mochila pequena e estava pronta para sair quando percebeu que não tinha visto se a sua mochila grande já tinha passado para o outro autocarro ou se continuava no primeiro. Saiu, voltou a entrar, revisou o banco de trás onde estava toda a bagagem, com excepção das nossas bicicletas que seguiam no tejadilho, e acabou por perceber que a sua mochila já estava no outro autocarro. Com dificuldades em abrir a porta, foi ajudada pelo motorista do lado de fora, e assim que conseguiu sair viu o outro autocarro a partir em alta velocidade com a sua mochila em cima.

O outro autocarro não era um shuttle como o nosso, mas sim aquilo que por aqui se chama um “chicken bus” (autocarro das galinhas), que são os antigos autocarros escolares americanos, pintados em cores berrantes e com frases alusivas a Deus e a Jesus, ao gosto dos motoristas, e que andam que se fartam. Como disse uma das passageiras à Bella “se isto te voltar a acontecer, faz ao contrário, vai tu no chicken bus, e deixa a mochila aqui, porque isto é uma companhia legítima, e têm obrigação de guardar a tua bagagem”. Mas para tudo há remédio e o nosso motorista lançou-se na perseguição do veloz autocarro que levava a mochila da Bella, enquanto esta tentava manter a calma, sem perceber muito bem o que lhe dizia o condutor em espanhol. Grandes subidas esperavam por nós e não havia meio de ver o autocarro, quando chegámos a um sítio de para-arranca, e o shuttle se ia metendo pela faixa contrária, e também no suposto passeio, o motorista disse à Bella que se não encontrássemos o autocarro ali, teria que tomar um táxi e continuar a perseguição por sua conta. Não foi preciso! Depois de uma violenta manobra para entrar por baixo de um viaduto, lá estava o chicken bus azul, com a mochila em cima, e uma salva de palmas estoirou entre os passageiros, seguido de um “corre, corre, corre”, já que a Bella teve que sair em grande velocidade e correr uns valentes 300 metros até alcançar o autocarro, que nessa altura já ameaçava partir novamente, felizmente impedido pelo trânsito massivo à sua frente.

E foi no meio desta emoção que cerca de quarenta minutos depois entrámos em Antigua, para um merecido descanso de uma semana.

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The arrival in Lanquin and looking for a little paradise to give rest to body and soul brought us a broad day of dolce fareniente, passed between good food, swinging on the hammock, bathing in the river and showering on the romantic shower overlooking the valley and many hours of conversation with João, a Portuguese traveler hitchhiking or by bus, bus which also had a mad ambition to get to Patagonia in a year or so. As it happened to us he let himself be seduced by the wonders of traveling slowly and will soon end his trip after almost a year and a half, in Costa Rica.

But the reason it had taken us to face the ordeal of the previous days and make a detour on our trek to the South was 10 Km away and a mere 20 quetzals (about EUR 2) travel in a pick-up back. And on a warm Sunday morning there we went, after waiting almost an hour for the pick-up to have more people, and eventually we went with a guy who had a small stand next to the National Park. In this area of Guatemala there are no buses in the true sense of the word, the transportation is done in vans or trucks flatbed, where people will often be carried with the goods, and where any owner of such vehicles can become temporarily a bus driver.

According to some Chapins (Guatemalan people) to whom we said we were going to Samuc Champey, this is one of the wonders of nature, with no real consensus as to the place it occupies in the ranking somewhere between the third and ninth. We confess we didn’t check, but this natural beauty is probably one of the nicest places we have been to.

Comprising swimmingpools (pozas), in a sort of cascade, connected to each other by small waterfalls and rocks, resembles a natural water park, where we had lots of fun exploring, from a pool to the other through the rocks or sliding in the waterfalls, and enjoy the relative lack of people to have some of the pools to ourselves. The amazing thing is that this work of nature is like a giant bridge, and underneath it passes a river that runs with full force, and where the waters from the last swimmingpool flow slowly. All this in the middle of two incredibly green cliffs, full of greenery and with the sound of howler monkeys.

Unfortunately, the pools are made of limestone, a brittle material to be undone over time, especially with the number of daily visitors that walk in it.

With the fatigue of the previous days, when we entered the park we saw it was possible to climb to a viewpoint, a half-hour walk, and decided immediately that we were only going to be in the pools. Probably so much fun and pure enjoyment of nature gave us the extra energy needed and so we went climbing up the forest to have a gorgeous view of the whole.

A few days in paradise were sufficient to recover our spirits, but the mountains of Guatemala make us think and decide that we will try to get rid of a lot of weight, and that until that happens we will not be climbing mountains with gradients of 14% just because.

And so happily we got in an eight-hour shuttle, bound for Antigua, the former capital of this country. The trip was not quite free from adventure, as Bella, a Scottish traveler decided at the first stop, to change her final destination. And how does this works? The driver, without any notice, and stopping at the edge of an almost highway, announced “Xela” (diminutive by which is known the city of Quetzaltenango), Bella in no time gathered all her stuff into the small backpack small and was ready to leave when she realized she had not seen if the large backpack had passed to the other bus or continued in the first. She exited the shuttle, re-entered, reviewed the backseat where was all the baggage, with the exception of our bikes that traveled on the rooftop, and eventually realize that her bag was already on the other bus. With difficulties in opening the door, she was aided by the driver on the outside, and as soon as she got out she saw the bus leaving at high speed with her backpack on it.

The other was not a shuttle bus like ours, but what is called a “chicken bus”, which are the old American school buses, painted in gaudy colors with phrases alluding to God and Jesus, at the taste of the drivers. As one of the passengers said to Bella “if this happens again, do it the other way around, you go in the chicken bus, and leave the backpack here, because this is a legitimate company and they are required to keep your luggage.” But there is a remedy for everything and our driver launched in the pursuit of the fast chicken bus carrying Bella’s backpack, while she was trying to remain calm, not quite understanding what the driver told her in Spanish. Large climbs were waiting for us and we just couldn’t reach the other bus, until we got to a traffic jam, and the shuttle would be getting into the opposing lane, and also in the supposed sidewalk to advance a little bit. This time the driver told Bella that if the didn’t find the bus at that place she would have to take a taxi and continue the pursuit on her own. It was not necessary! After a violent turn to get under an overpass, there was the blue chicken bus with her backpack on, and a round of applause broke out among the passengers, followed by a “run, run, run” since Bella had to leave at great speed and run a mighty 300m to reach the bus, that at that time already threatened to leave again, fortunately prevented by the massive traffic ahead.

And amidst this excitement about forty minutes later we entered Antigua for a well deserved rest for a week.

 

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4 pensamentos sobre “Semuc Champey e as soluções centro-americanas | Semuc Champey and Central American solutions

  1. Aaaah…conheço o João Bota, viajante com quem se cruzaram 🙂 (frequentei o ensino secundário com o mesmo)
    Sigo-vos no vosso blog a algum tempo, sempre com entusiasmo de ler os vossos relatos.
    Desejo-vos a continuação de ótima viagem! 😀

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