Natal | Christmas

Apesar do conforto do autocarro, a chegada a Guadalajara encontrou-nos um pouco atordoados, e muito ensonados tirámos as bicicletas do autocarro, montámos tudo e fizemo-nos à estrada. Eram oito da manhã do dia 24, e um trânsito escasso, parecia fazer sentido apenas na minha cabeça. Afinal de contas, numa cidade de cinco milhões de habitantes o trânsito nunca chegaria a abrandar a níveis amáveis para um ciclista, principalmente na via rápida de quatro faixas que ligava a estação de camionetas ao centro da cidade. Respirar fundo, pedalar o mais depressa que conseguimos, felizmente era quase sempre a descer, e passados vinte minutos já começámos a entrar em ruas mais estreitas com carros mais lentos e motoristas menos agressivos.

Chegados ao centro começamos a notar as incríveis semelhanças com a cidade do Porto: ruas e monumentos em granito, uma pequena Torre dos Clérigos, e mais tarde ainda descobrimos a estrada da Circunvalação, o Palácio de Cristal, e até um dos pratos típicos, a Torta Ahogada, uma sanduíche de carne, coberta de molho a fazer lembrar uma francesinha. Curiosamente, ou não, esta é também a segunda maior cidade do país.

Cruzámos parte da baixa, cheia de gente atarefada nas últimas compras para a consoada, entrando e saindo das lojas em passo apressado, e chegámos à Rua Pedro Loza, a casa dos pais da Alexa.

Como muitas casas mexicanas, a fachada não deixava adivinhar o palacete que acolheu os 15 ciclistas. No terraço, que faz as vezes de telhado da casa, montámos um pequeno bairro de tendas, e depois de devidamente instalados fomos, com outros ciclistas, explorar um mercado próximo para tomar o pequeno-almoço. O mercado fervilhava de vida! Famílias inteiras vinham beber sumos naturais e comer tacos e gorditas ao stand mais concorrido, onde nós também nos deliciámos. Depois de uma volta pelo mercado, de trocas de simpáticas conversas com os vendedores interessados na nossa história, e de dois capuccinos e uma panqueca, estávamos prontos para regressar a casa, onde relaxámos, falámos com as nossas famílias no skype e dormimos a sesta, em preparação para a ceia, cujo início estava marcado para as dez da noite.

A família da Alexa fez questão de tratar de todos os preparativos. No pátio central da casa montaram um toldo branco, três mesas corridas, luzes de natal e trataram também de toda a comida necessária, bem como de um enorme manancial de tequilla. Cerca das nove da noite começou a chegar o resto da família, todos nos seus melhores trajes, saltos altos, maquilhagem, vestidos, casacos e blazers aprumados, perfumes, roupas natalícias para as crianças. Só nós e os outros ciclistas destoávamos um pouco, as melhores roupas que temos não chegam sequer a ser elegantes.

Aberto o buffet havia fiambre, cogumelos, arroz selvagem, frango, ceviche de camarão, massa, queijo, batatas, tostada, saladas e para a sobremesa bolo, tarde de noz e gelado. Tudo acompanhado com vinho, tequilla, refrigerantes, água. Uma quantidade enorme de comida, que no dia seguinte voltou a alimentar um batalhão de gente.

Entre conversas e risos foi passando a noite, até que o pai da Alexa pediu ao Dave que fosse buscar a sua cítara (o Dave e a Uschi são os ciclistas que carregam mais tralha que nós já conhecemos, entre essa tralha estão vários instrumentos musicais, incluindo uma enorme e pesada cítara) para dar a conhecer à sua família um instrumento raro em terras mexicanas, cujo som hipnotizador mereceu a atenção concentrada de todos os convidados.

As crianças mexicanas recebem os seus presentes na manhã de 25 de Dezembro pelo que não houve troca de prendas e aos poucos todos foram saindo até serem horas de, também nós, nos recolhermos.

No dia seguinte, já mais recomposta da viagem, acordei para a tristeza de não ter filhós e bolo rei para o pequeno-almoço, que é como quem diz, não poder passar o Natal, por mais aborrecido e monótono que seja, na companhia da minha família. Valeu-me uma vez mais o skype. A mim e aos outros ciclistas todos. Cada um no respectivo fuso horário, lá ia descobrindo um canto onde se entretinha a falar com a sua família nos mais diversos idiomas, até que virava o computador e todos dizíamos adeus.

Depois do pequeno-almoço, do qual o Pedro foi parte fundamental na preparação dos ovos e outras iguarias, saímos para um passeio a dois nas, supostamente vazias, ruas da cidade. E se é verdade que o comércio estava fechado, também é verdade que os vendedores ambulantes resolveram aproveitar a oportunidade e acabámos a levar um banho de multidão no centro histórico.

De regresso a casa foi altura de comer as sobras e embarcar em mais uma sesta, da qual o Pedro só acordou às onze da noite, para logo começarmos a jogar uma partida de Parchis (Ludo) com dois primos da Alexa, o Ernesto e o Roberto. E assim me vieram à recordação natais passados, em que a noite do dia 25 era passada com a família, à volta do novo jogo recebido.

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Despite the comfort of the bus, arriving to Guadalajara found us a bit stunned, and half asleep we took the bikes off the bus, we set up everything and hit the road. It was eight in the morning of the 24th, and a scarce transit, seemed to make sense only in my head. After all, in a city of five million inhabitants the traffic never slows down to kind levels for a cyclist, especially in the four-lane expressway linking the bus station to the city center. Deep breathing, pedaling as fast as we could, luckily it was almost always down, and after twenty minutes we are already entering narrow streets with slower cars and less aggressive drivers.

Arriving at the center we began to notice the striking similarities with the city of Porto: Streets and monuments in granite, a small Tower of Clerics, and later we discovered the Circunvalação road, the Crystal Palace, and even one of the typical dishes, the torta ahogada a meat sandwich, covered in sauce that reminds us of a Francesinha. Interestingly, or not, this is also the second largest city in the country .

We crossed part of downtown, full of busy people ishopping for Christmas Eve, going in and out of stores in a brisk pace, and arrived at Pedro Loza street, the home Alexa’s parents.

Just as many Mexican houses, the facade would not let us guess the palace that housed the 15 cyclists. On the terrace, which doubles as the roof of the house, we set up a small neighborhood of tents, and after we were properly installed, we went to explore a nearby market to take breakfast, with other cyclists. The market bustled with life! Whole families came to drink fresh juices and eat tacos and gorditas at the busiest stand, where we also we marveled. After a walk around the market, some exchange of nice conversations with vendors interested in our history, and two cappuccinos and a pancake, we were ready to return home, where we relaxed, talked to our families on skype and took a little nap, in preparation for supper, which originally was scheduled for ten o’clock.

Alexa’s family made sure to handle all of the preparations. In the central courtyard they put a white awning, three big tables, christmas lights and also dealt with all the food needed, as well as an enormous source of tequila. At about nine o’clock the rest of the family began to arrive, all in their best costumes, high heels, makeup, dresses, jackets and upright blazers, perfume, Christmas clothes for kids. Just us and the other cyclists were a bit out of tune, the best clothes we have do not even manage to be stylish.

The buffet was open and it had ham, mushrooms, wild rice, chicken, shrimp ceviche, pasta, cheese, potatoes, roasted meat, salad and for dessert, some cake, walnut pie and ice cream. All accompanied with wine, tequila, soda, water. A huge amount of food, that on the next day was enough to feed an army of people.

Between conversation and laughter the night passed, until Alexa’s father asked Dave to fetch his sitar (Dave and Uschi are the cyclists that carry more stuff that we had met, among their there are several musical instruments, including a huge and heavy sitar) and show his family a rare instrument in Mexican lands, whose mesmerizing sound deserved the concentrated attention of all the guests .

Mexican children receive their presents on the morning of December 25th so there was no exchange of gifts and all were gradually leaving until some hours later we also went to bed.

The next day, now recomposed from the trip, I woke up to the sadness of not having portuguese sweets, meaning not being able to spend Christmas, however dull and monotonous, in the company of my family. Skype was once again my best friend. Mine and of all the other cyclists. Each of them in their respective time zone, found out a corner to speak to their families in various languages, until they turned the computer and we all waved.

After breakfast, of which Pedro was a key part in the preparation of eggs and other treats, we went out for a walk in the supposedly empty city streets. And if it is true that the stores were closed, it is also true that the street vendors decided to seize the opportunity and we ended up taking a crowd bath in the historic center.

Back home it was time to eat leftovers and embark on another nap, from which Pedro only woke at eleven pm, soon to start playing a game of Parchis (Ludo) with two Alexa’s cousins, Ernesto and Roberto . And so it came to my recollection past Christmases, when the night of the 25th was spent with family, around the new table game received as present the day before.

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