A casa ciclista | The cyclist house

O pós-natal e a partida da Alexa, Paul e resto da família levou-nos a transitar do sumptuoso palácio na Pedro Loza para parte incerta. Numa azáfama matutina todos os ciclistas tentavam encontrar sítio onde ficar, ora warmshowers, ora couchsurfers, ora hoteis. Nós próprios não nos preocupámos muito com o assunto, o Torii, amigo ciclista desde La Paz, que estava a tomar conta de um quarto de uma amiga numa rua próxima, havia levantado a hipótese de podermos ficar nesse mesmo apartamento. Após montarmos tudo nas belas binas e despedidas feitas, seguimos ao encontro do Torii com planos de fazer um almoço, acompanhados do Peeder e do Charles Paul. Passámos a tarde cozinhando, conversando e comendo algo aportuguesado (uma espécie de sopa de beldroegas) numa toada domingueira esperando a chegada do Javier, para decidir o nosso futuro próximo. Resultou que a hipótese de ali ficar não logrou e já de noite e entre aguaceiros seguimos para a última hipótese que dificilmente nos deixaria sem tecto.

O Hotel Hamilton era bastante central e os preços bastante modestos, e consequentemente também as comodidades eram esparsas, mas ofereciam-nos tudo o que queriamos: espaço só para nós. Assim por dois dias e sem estímulos de companheiros (com pontuais exceções da presença do Torii) deambulámos pela cidade por ruas romanticamente frias e chuvosas, entramos no museu-palácio Cabañas com bela arte, e no teatro Degollado procurámos um ballet. Nada havia para a próxima semana, mas apenas para os últimos dois dias do ano, onde a filarmónica de Guadalajara iria tocar dois concertos de fim de ano. A senhora disse-nos que apenas a 3ª plateia estava disponível e os bilhetes eram 150 pesos (12 €). Num impulso comprámos os bilhetes e ficámos ancorados pelo menos uma semana mais, comprometidos pelo concerto e passagem de ano.

Como tínhamos que ficar tanto tempo o nosso orçamento não resistiria a tamanho luxo, e contactámos a casa ciclista de Guadalajara que se havia revelado uma impossibilidade por estar muito cheia há uns dias atrás. No mesmo dia em que escrevemos, recebemos uma resposta afirmativa do Yeriel e voltámos a arrumar malas e partir pelas atribuladas ruas da cidade. A casa ciclista, na rua Manuel Acuña, não ficava longe, mas atrasámo-nos e quando chegámos não havia ninguém para nos receber. Entre tentativas de contactar alguém, lá chegou o Izhak e a Claudia, acompanhados pelo Bernardo e família e mais não sei quantos amigos que rapidamente nos aliviaram do protagonismo, tamanha era a algazarra e animação, complementada pela canina Bici, a cadela adoptada da casa ciclista. Disseram-nos que podíamos ocupar as mezzanines, que estavam já ocupadas por alguns ciclistas, mas com boa vontade caberíamos. Assim na primeira noite partilhamos o chão com o Dave e a Uschi, que nos deixaram no dia seguinte. No quarto contíguo estavam o Brendan e o Sydney.

Sem pressão, esperando pelo concerto de fim de ano, pudemos mais do que conhecer a cidade. Elegemos cafés, fizemos preferências em restaurantes e passeámos várias vezes pelos mesmos sítios redescobrindo lojas, fachadas e jardins, atalhos e recantos entre ruas sombreadas aqui e ali por laranjeiras lembrando algumas aldeias do nosso Portugal. Adquirimos hobies, eu (Pedro) comprei um guitalele, a Sara linhas e agulhas de tricot e livros de gramática e ortografia de espanhol para consolidar a inevitável experiência oral. Pouco a pouco começámos a ser integrados no quotidiano da nova urbe e círculo de amigos, naquilo que já não nos lembramos ser trivial: ir beber uns copos ou jantar fora, passear de bina na via recreativa pelo domingo ou mesmo ficar por casa sem fazer nada em especial. O tempo passava deliciosamente por nós e estávamos confortáveis com isso. Entretanto as amizades cresciam como ervas daninhas.

O concerto de fim de ano foi muito divertido, cheio de clássicos, salpicado por outras de elevado valor para a cultura popular do México, até ao grande finale a bater palmas ao som da Marcha Radezki como no concerto de ano novo de Viena. Saímos do Degolados de alma cheia e prontos para o ano novo. O Torii e a Gabi que nos acompanharam ao concerto tinham planos diferentes dos nossos para a noite de 31 e despedimo-nos naquela noite. O fim de ano seria acompanhado de outros ciclistas e novos amigos. A Carmen e o Yeriel iriam fazer um pequeno jantar e de bom grado assitimos a participar e levar uma genuína sobremesa portuguesa: arroz doce. Diga-se de passagem, após essa noite iria repetir a receita uma boa mão cheia de vezes… Assim com o belo casal anfitrião reforçado pela simpatia da Majo, nós e mais três outros ciclistas convivemos à mesa de um jantar bem acompanhado por cavalitos de tequilla. Justo é dizer que durámos pouco mais que a uma da manhã e entre a conversa a meia-noite passou bastante despercebida.

Ah! Devem querer saber quem são outros três ciclistas. O primeiro é o Lonxo, ilustre ciclista basco que quase interruptamente calcorreia mundo desde 1997, ou seja há 16 anos, e o casal italiano-basco Evelyn e Aitor que apesar de andarem há menos tempo que o veterano Lonxo, já têm quase 5 anos desde que começaram a viajar. Devem perceber agora como se passou a nossa última noite do ano.

Após o fim de ano teoricamente não havia razões para continuar em Guadalajara. E na prática tão pouco. Mas cada vez que antecipávamos a despedida para o dia seguinte, uma, ou várias, ou melhor, todas as pessoas que se cruzavam connosco nos pediam para ficar mais uma noite. E era tão bom ficar que facilmente cedíamos aos pedidos do Izhak, Claudia, Bernardo, Jorge, Carmen, Yeriel  e demais ciclistas. Começávamos a equacionar ficar por ali, alugar um quarto e começar, quiçá, um negócio de doces portugueses vendidos numa bicicleta. Não consigo explicar como nos sacudimos do encanto, mas muito à revelia nos convencemos que tínhamos de continuar a viagem, pois nem a metade do nosso tempo planeado havíamos chegado e se nada mais aliciante  descobríssemos no nosso futuro, poderíamos sempre voltar mais tarde, pois temos ali bons amigos. Já temos saudades de todos!

IMGP8568

IMGP8570

IMGP8575

IMGP8582

IMGP8590

IMGP5420

IMGP5359

IMGP8638

The post Christmas and the departure of Alexa, Paul and the rest of the family, took us to transition from the sumptuous Pedro Loza’s palace to the unknown. In the morning all cyclists were trying to find somewhere to stay between warmshowers, couchsurfers or hotels. We didn’t not care very much about the subject, Torii, a cyclist friend from La Paz, who was taking care of a friend’s room in a nearby street, had hypothesized that we could stay in the same apartment. After we set up all the beautiful bike and did all the farewells​​, we went to meet Torii with plans to make lunch, accompanied by Peeder and Charles Paul. We spent the afternoon cooking, talking and eating something portuguesich (a kind of purslane soup) in a Sunday-tune awaiting the arrival of Javier, to decide our near future. The hypothesis to stay there failed so already in the dark and between showers we went to the last chance that would  hardly leave us homeless.

The Hamilton Hotel was very central and with very modest prices, and consequently also the amenities were sparse, but offered us everything we wanted: space just for us. So for two days without stimuli from fellow cyclists or hosts (with very few exceptions to the presence of Torii ) we rambled  romantically through the city in cold and rainy streets, entered the palace-museum Cabañas with beautiful art, and at theater Degollado we tried to get tickets to a ballet. There was nothing for the next week, but only for the last two days of the year, where the orchestra would play two of new years Guadalajara’s concerts. The lady told us that only the 3rd balcony was available and the tickets were 150 pesos (12 €). Impulsively we bought the tickets and were anchored at least a week, committed by the concert and the New Year’s Eve.

However our budget could not resist the luxury of spending so much time at the hotel, so we contacted the cyclist house of Guadalajara who had proved an impossibility for being too full a few days before. On the same day that we wrote, we received an affirmative response from Yeriel and we packed our bags and left through the troubled streets. The cyclist home, in Manuel Acuña Street, was not far, but we got late and when we arrived there was no one to greet us. Between attempts to contact someone, there came Izhak and Claudia, accompanied by Bernard and family and more friends who quickly alleviated the attention on us, such was the din and excitement, complemented by canine Bici, the adopted dog of the house. They told us that we could occupy the mezzanines, which were already taken by some cyclists, but with good will we would all fit. So on the first night we share the floor with Dave and Uschi, who left us on the next day. In the next room were Brendan and Sydney .

With no budget pressure, waiting for the new year’s concert, we got to know more of the city. We elected preferred cafes and restaurants and walked the same places repeatedly rediscovering shops, gardens and facades, shortcuts and crannies between shaded streets here and there by orange trees remembering some of our villages from Portugal. We acquired hobies, I (Pedro) bought a guitalele, Sara some strings and knitting needles and books of grammar and spelling of Spanish to consolidate the inevitable oral experience. Gradually we began to be integrated into everyday city life and circle of friends, which we no longer remember as trivial: go have drinks or dinner out, going on our bikes in recreational pathway on Sunday or even stay home doing nothing in particular. Time passed delightfully for us and we were comfortable with it. However friendships grew like weeds.

The New  Year’s concert was fun, full of classics peppered with other high value songs of the popular culture of Mexico, to the great finale clapping to the sound of the March Radezki as the New Year’s concert of Vienna. We left the Degollados with a full soul and ready for the New Year. Torii and Gabi who accompanied us to the concert had different plans for the evening of the 31st and we said goodbye that night. The end of the year would be accompanied by other cyclists and new friend . Carmen and Yeriel would make a small dinner and gladly we agreed to participate and take an authentic Portuguese dessert: rice pudding. By the way, after that night I would repeat the recipe a good handful of times … So with the lovely host couple reinforced by the sympathy of Maj , we and three other cyclists shared a dining table accompanied by cavalitos of tequilla. Is fair to say that we’ve lasted little more than one in the morning and the conversation made midnight passed quite unnoticed.

Ah! I guess you want to know who are the three other cyclists . The first is Lonxo, a renowned Basque cyclist who almost uninterruptedly wanders the world since 1997, ie 16 years ago, and the couple Italian -Basque Evelyn and Aitor that although are taking less time than the veteran Lonxo, already have nearly 5 years since they began traveling. You should now understand how we spent our last night of the year.

After the holidays theoretically there was no reason to continue in Guadalajara. And neither was in practice. But every time we anticipated a farewell for the next day, one, or several, or rather all the people who talked with us asked us to stay another night. And it was so nice to stay that we easily gave in to Izhak, Claudia, Bernardo, Jorge, Carmen, Yeriel and other cyclists’ requests. We began to equate to stay there, rent a room and get, perhaps, a business of Portuguese desserts sold on a bicycle. I can not explain how we broke the spell, but in absentia we convinced ourselves that we had to keep going because not even half of our planned time had arrived and if nothing else we discovered in our exciting future, we could always come back later because we have good friends there. We already miss everyone!

 

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s