Viva Mexico!

Acordámos o mais cedo que nos foi possível, montámos nas bicicletas e lá fomos nós em direcção à fronteira. Do lado de cá já conseguíamos ver Tijuana, uma espécie de morro, cheio de casas inacabadas, precisamente o oposto dos calmos e organizados Estados Unidos. Tomámos o caminho pedonal, com as bicicletas pela mão, trocámos os últimos dólares por pesos, perguntámos onde é que tínhamos que entregar os impressos brancos que nos deram no aeroporto, “apenas do lado de lá”, disseram-nos, e sem qualquer possibilidade de regresso aos Estados Unidos, entrámos com confiança em terras mexicanas.

Eu (Sara) já tinha estado neste país em 2001 e juro, assim que passámos a fronteira senti o mesmo cheiro que há 12 anos atrás, a memória olfactiva é mesmo algo incrível, mas durou apenas uns segundos.

À entrada no México ninguém nos pergunta nada, ninguém nos pede o passaporte, é basicamente passar e andar. Já estávamos avisados desta situação, e por isso parámos por nossa iniciativa na alfândega para nos carimbarem o passaporte e para adquirimos os vistos que nos permitem permanecer no país por 180 dias (o pagamento deverá ser feito num qualquer banco, antes de deixarmos o país).

Tratadas as burocracias seguimos pela rampa, onde mexicanos simpáticos nos iam sorrindo e dando um jeito para passarmos com as bicicletas, outros de metralhadoras na mão, nem os dentes se lhes via. Muita gente carregava sacos e malas gigantes, alguns tentavam atrair-nos para um táxi, outros encostados pela apenas miravam. Logo começaram também as habituais questões acerca da nossa viagem, e pelo meio da conversa chegámos ao fim do caminho pedonal.

Fomos então dar a uma praça, cheia de lojinhas preparadas para os gringos, farmácias, muitas farmácias, barraquinhas de feira com tudo o que se possa imaginar, pequenas taquerias com preços inacreditavelmente baixos, e música em altos berros a sair de umas colunas, possivelmente de alguma loja a tentar atrair clientes. Ainda eram dez e meia da manhã e já Tijuana começava a explodir de vida.

Mas já tínhamos decidido que não queríamos ficar muito tempo nesta cidade de má reputação, e que rapidamente nos queríamos dirigir a Rosarito. Contávamos com duas alternativas, na primeira teríamos que atravessar Tijuana, passar para uma estrada pelo meio de uma montanha, sem berma e com muito trânsito. A segunda alternativa, recomendada pelo Big Mike, ainda em San Diego, consistia em seguir a estrada junto à fronteira, e depois entrar na auto-estrada, praticamente plana, com pouco trânsito e uma berma larga. O único senão, é proibida a circulação de ciclistas.

Resolvemos tentar a nossa sorte pela segunda e ainda em Tijuana, naquela mesma praça percebemos que o GPS não nos ia indicar o caminho, e que teríamos que encontrar a o caminho correcto pelos nossos próprios meios, dando uso à inteligência e intuição. E foi assim que em menos de nada, e sabendo que tínhamos que ir em direcção à costa, seguimos as placas que diziam Playas de Tijuana/Rosarito. Não sabemos muito bem como mas quando demos por nós já estávamos numa via rápida, sem berma, encolhendo-nos como podíamos às razias de carros e autocarros que apitavam furiosamente por terem que se afastar menos de 30 cm para não nos passarem por cima. Nisto aparece um risco no chão, simulando uma berma, apenas para dar lugar a mais uma faixa de rodagem que se inicia pela direita. Mais uma manobra perigosa e pela cabeça só me passa, “pronto, tive uma vida boa, ainda gostava de conhecer o México, mas desta estrada vamos sair de ambulância”. Que entrada triunfante!

Felizmente surgiu uma berma, cheia de entulho é certo, mas um espaço só para nós. Claro que os carros continuavam a passar a alta velocidade, mas pelo menos já não tinham que se desviar.

E quando já respirávamos de alívio apareceu-nos pela frente a mais despropositada subida em que pusemos a vista em cima. Íngreme que seu sei lá, comprida, e sem qualquer hipótese de desmontar da bicicleta e levá-la pela mão, não fosse um dos velozes condutores que passavam ali mesmo ao lado resolver acertar-nos com um espelho no braços. Mesmo assim parei por duas vezes para ganhar fôlego, e, sabe Deus como, consegui subir até ao fim montada na bicicleta, vai-se a ver e foi da adrenalina.

Uma meia hora depois chegámos às praias de Tijuana e saímos da via rápida.

Sãos e salvos parámos para retomar fôlego, comer um snack, e preparar-nos para a nossa nova vida de crime em terras mexicanas, tentar entrar na auto-estrada à socapa, sem passar pelas portagens e sem sermos apanhados pela polícia em tamanha transgressão.

Demos voltas e voltas para tentar encontrar a entrada, mas foi um taxista que nos safou apontando vagamente uma direcção. As ruas eram de terra batida, e os bairros não pareciam ser dos mais turísticos, mas nem isso nos deteve e, com a persistência (ou teimosia, dizem as más línguas) que é característica do Pedro, lá demos com uma falha entre blocos de cimento e a parede de uma casa, que o proprietário ainda estava a acabar, e por onde, resvés Campo de Ourique, conseguimos passar com as bicicletas.

Entrámos pela auto-estrada e ainda nem um minuto tinha passado e oiço o Pedro atrás de mim a dizer: “A polícia acabou de passar por ali (numa estrada superior que dava acesso à auto-estrada), estamos lixados!”. “Pedala depressa”, respondi eu, e lá fomos por doze belíssimos quilómetros, em grande velocidade a tentar escapar à polícia (que aparentemente tinha mais que fazer do que andar a perseguir-nos).

Chegados a Rosarito, e já sem o coração aos pulos, saímos da auto-estrada e entrámos pela rua principal da cidade à procura de um lugar para almoçar. De repente, um cheiro familiar, português, carne grelhada no carvão! Imediatamente parámos no tosco estabelecimento com chapa de zinco no tecto e mesas de plástico para enfiar a dentuça num belíssimo taco de carne assada – que consiste numa tortilha dobrada ao meio, recheada com carne grelhada cortada em pedacinhos pequenos, tomate cortado aos bocadinhos, alface ripada, abacate e molhos variados. Estávamos no céu, e longe da comida monótona dos Estados Unidos!

Para aquela noite tínhamos tentado contactar o Roberto, que não nos tinha dado resposta até termos saído do motel de manhãzinha. Assim accionámos o plano B, o Ian, que ficava a 30 km dali, pelo que convinha apressar-nos e rapidamente nos fizemos à estrada. Ainda nem cinco minutos tinham passado e aparece o Roberto numa pick-up, que depois de se certificar que éramos os portugueses, nos disse que íamos ficar com ele naquela noite, que podíamos ir andando já que o pai dele estava à nossa espera, e ele ia à loja de bicicletas e voltava dentro de duas horas.

E lá fomos nós, andámos mais uns doze quilómetros e conhecemos o Tacho, o pai do Roberto, proprietário de um restaurante de tacos de peixe e camarão, onde trabalha parte família, e com quem ficámos alegremente a conversar até chegar o nosso anfitrião que nos mostrou o sítio onde íamos dormir.

Depois ainda fomos comer uns tacos de camarão ao restaurante da família, e novamente nos sentimos felizes por estar no México, e poder comer comida tão fresca, saborosa e saudável.

E se a comida nos deixa muitos satisfeitos, já o que nos rodeia ainda nos deixa um bocadinho nervosos. Tudo é muito diferente dos Estados Unidos, mais desorganizado, menos limpo, com menos ruas alcatroadas, e todos são tão diferentes que não conseguimos reconhecer os que têm boas e os que têm más intenções. O meu instinto diz-me que é altura de voltar para casa, os meus sentidos estão alerta de forma permanente, mas o meu lado racional sabe que só precisamos de mais uns dias de adaptação até conseguirmos relaxar.

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We woke up as early as we could, mounted our bikes and off we went towards the border. Still on the USA side we could already see Tijuana, a kind of hill, filled with unfinished houses, precisely the opposite of the calm and organized United States. We took the pedestrian path with the bikes by hand, exchanged our last dollars for pesos, asked where we had to return the white form they gave us at the airport, “just on the other side”, we were told, and without any possibility return to the United States, we entered with confidence in Mexican lands .

I (Sara) had already been in this country in 2001 and I swear, as soon as we passed the border I felt the same smell I felt that 12 years ago, the olfactory memory is really something amazing, but it lasted only a few seconds.

At the entrance in Mexico nobody asked us anything, nobody asked for a passport, you just pass the board and go. We were advised of this situation, and so we stopped at customs on our own initiative to stamp our passports and got the visas that allow us to stay in the country for 180 days (payment must be made at any bank, before we leave the country) .

We all the bureaucracies checked we follow the ramp where friendly smiling Mexicans let us pass, giving us room for the bikes, while other Mexicans in a military uniform, with their machine guns in hand, didn’t smile at all. There were lots of people carrying bags and giant suitcases, some tried to lure us into a cab, other were just leaning against a wall, watching. Soon started the usual questions about our trip, and in the middle of the conversation we reached the end of the pedestrian path.

We then entered a square full of shops prepared for the gringos, pharmacies, lots of pharmacies, fair stalls with everything imaginable, small taquerias with unbelievably low prices, and high music blaring out of a speaker, possibly from some store trying to attract customers. It were still half past ten in the morning and Tijuana began to explode with life.

But we had already decided that we did not want to stay long in this town of bad reputation, and that we wanted to go as fast as we could to Rosarito. We had two options, in the first one we would have to go through Tijuana, in a road through a mountain without shoulder and heavily trafficked. The second alternative, recommended by Big Mike, still in San Diego, was to follow the road along the border, and then get on the toll road, almost flat, with little traffic and a large shoulder. The only drawback, it is forbidden to cyclists.

We decided to try our luck in the second and still in Tijuana, at that same plaza, we noticed that the GPS was not going to show us the way, and we would have to find the correct way on our own, making use of our intelligence and intuition. And so in no time, and knowing that we had to go towards the coast, we followed the signs that said Playas de Tijuana / Rosarito. We don’t know very well how but we found ourselves in a highway without a shoulder, trying to get away from the way of cars and buses that honked angrily because they have to move away less than 30 cm in order to pass us over. Herein appears a line on the ground, simulating a shoulder, just to make room for another lane which starts from the right. A more dangerous maneuver and in my head my thought, “Ok I had a good life, I would like to see Mexico, but maybe we are only going out of this road by ambulance.” What a triumphant entry!

Fortunately there came the shoulder, full of rubble that’s for sure, but it was a place just for us. Sure the car continued to move at high speed, but at least they did not have to divert.

And when we breathed with relief appeared ahead of us the most preposterous climb we put eyes on. Steep as hell, long , and without any chance of dismounting from the bike and take it by the hand, to avoid some mirror of a speedy driver to hit us in an arm. Still I stopped twice to take a breath, and, God knows how, managed to climb to the end mounted on the bike, maybe it it was just the adrenaline.

Half an hour later we reached the beaches of Tijuana and left the highway.

Feeling safe now, we stopped for a breath, eat a snack, and prepare for our new life of crime in Mexican lands, trying to enter the highway on the sly, without going through the tolls and without being caught by the police in such transgression.

We went round and round trying to find the entrance but it was a taxi driver who finally helped us vaguely pointing in one direction. The streets were made of dirt, and the neighborhoods did not seem to be the most touristy, but that didn’t stopped us, and with the persistence (or stubbornness, say the gossips) that is characteristic of Pedro, we found a gap between blocks of cement and the wall of a house, that the owner was still finishing as we passed by, only with enough space for the bikes and nothing else.

We entered the highway and not a minute had passed when I heard Pedro behind me saying: “The police just passed there (an upper road that gave access to the toll road) , we’re screwed”. “Cycle faster” I replied, and so we went for twelve beautiful kilometers at high speed trying to escape the police ( who apparently had more to do than to chase us).

We arrived in Rosarito, with our hearts beating slowly, we left the highway and we entered the main street of town looking for a place to have lunch. Suddenly, a familiar smell, Portuguese chargrilled meat! Immediately we stopped in a rough establishment with zinc plate on the ceiling and plastic tables to eat a wonderful taco de carne assada – which is a tortilla folded in half, stuffed with grilled meat cut into small pieces, small pieces of tomato, slatted lettuce, avocado and assorted sauces. We were in heaven, and away from the monotonous food of the United States!

For that night we had tried to contact Roberto, who had not answered until we left the motel early in the morning. Thus we put into action the plan B, Ian, which was 30 km away, so it behooved us to hurry and quickly made to back to the road. Not even five minutes had passed and Roberto appeared in his pick -up, and after making sure that we were the Portuguese, told us we were going to stay with him that night , and we could get going because his father was waiting for us, and in the meantime he went to the bike shop and returned within two hours.

Off we went, some twelve kilometers and we met Tacho, Roberto’s father, owner of a fish and shrimp tacos stall, where part of the family works, and with whom we were chatting happily until our host arrived and showed us the place where we would sleep.

After that we had some shrimp tacos at the family restaurant, and again we felt happy to be in Mexico, and being able to eat fresh, tasty and healthy food.

The food might give us a comfort feeling but our surrounds us still leaves us a little nervous. Everything is very different from the United States, more disorganized, less clean, less asphalt roads, and all are so different that we fail to recognize those with good and those with bad intentions. My instinct tells me it’s time to go home, my senses are permanently alert, but my rational side knows that we only need a few more days until we can relax and adapt.

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