Uma noite dos diabos | A hell of a night

Do Panamá à Colômbia não existe passagem por terra, melhor dizendo, existe mas não há estrada, apenas selva, selvaticamente frequentada, dizem, por sequestradores, guerrilheiros, traficantes de droga e outros malandros que tais. Restava-nos pois a via aérea ou marítima. O avião seria a solução rápida, embora cara, devido ao excesso de bagagem que teríamos que pagar, por mar o trajecto poderia ser feito num jipe desde a Cidade do Panamá, e depois em três lanchas, e que é a escolha de muitos ciclistas, embora seja um risco para as bicicletas que vão o percurso todo a bater contra o barco.

A alternativa, escolhida por nós, foi ir de veleiro. Não é a mais barata das soluções, mas são cinco dias com toda a comida incluída e paragem no idílico arquipélago de San Blás, o supremo cliché de paraíso.

Foi assim que nos vimos a embarcar a bordo do Wild Card, um veleiro enorme, já um pouco gasto pelo tempo, comandado pelo Capitão John e tripulado pela Debbie e pelo Mick. Como não existe marina em Portobelo foi necessário levar tudo, incluindo as bicicletas, num pequeno bote, de onde depois a bagagem foi içada para o barco. As instruções prévias eram de que devíamos fazer uma pequena mochila com as coisas absolutamente essenciais, já que o resto da bagagem seria armazenada até ao fim da viagem. Quando vi onde iam pôr as bicicletas engoli em seco e dei o melhor de mim para confiar nos nós, feitos pela tripulação, que seguravam as nossas pobres miúdas do lado de fora do convés, na traseira do barco, onde todos nos garantiram que não seriam molhadas pelas ondas.

Quando já estávamos todos a bordo – nós, a tripulação e mais onze companheiros de viagem, das mais variadas nacionalidades e idades, que em comum tinham uma mochila às costas como modo de viagem – rapidamente vestimos os fatos-de-banho e demos o primeiro mergulho. Confesso (Sara) que quando assomei ao convés e vi que era daí mesmo que tinha que me atirar fiquei com um bocado de medo já que a água me parecia um pouco distante, mas a falta de alternativa evitou o vacilo e lancei-me de pés com o nariz tapado, tantas vezes nos dias seguintes, que aqueles mergulhos passaram a ser dos meus momentos favoritos da viagem.

Já refrescados, a Debbie fez-nos a explicação de segurança e do que poderíamos esperar dos próximos dias, colocando ênfase nos dois últimos, que seriam os piores, com mar bravo e dificuldade de nos mantermos no convés. O seu conselho foi tomar muitos dramamines (comprimidos para o enjôo) e dormir o mais que conseguíssemos. Nada indicava, portanto, que aquelas primeiras horas de viagem fossem particularmente duras e seguimos então sem medos, a ver Portobelo a afastar-se, a passarmos ao largo da ilha de Drake, onde o famoso corsário estará enterrado, até que o barco se começou a mexer demasiado e resolvemos deitar-nos. Ainda em bikini e já bastante enjoada pedi ao Pedro que fosse à cabine buscar-me a t-shirt e um dramamine. O pobre desgraçado acedeu ao meu pedido e quando regressou vinha lívido e com a notícia que já tinha vomitado. Foi quanto bastou para que os dois, à vez e por solidariedade, fôssemos atirando ao mar almoço e pequeno-almoço até já não haver mais nada no estômago para mandar fora.

Foram horas difíceis, entregues à nossa própria sorte, ninguém podia fazer nada por nós e a nós restava-nos aguentar. Embora tivéssemos inaugurado as hostes, alguns companheiros de viagem resolveram juntar-se ao nosso infortúnio, pelo que o capitão, habituado a estas andanças, antes de fazer subir o jantar, veio perguntar quem é que queria comer. Pela minha parte bem lhe agradeci não ter tentado pôr-me comida à frente. A certa altura o mar ficou mais calmo, a vela içada estabilizou o chão, e nós lá conseguimos dormir sem quaisquer interrupções para regalar os peixes com mais comida. Lá para as três da manhã ancorámos, mas não tínhamos coragem para nos levantarmos, quanto mais para descermos à cabine, pelo que passámos a noite no convés, embora com frio, principalmente o Pedro que não se tinha lembrado de trazer uma t-shirt para si. Lembro-me de ver nascer a lua e pensar, que bonito que é, que pena eu estar um farrapo, mas ao raiar da aurora lá fomos despertando e percebendo que talvez conseguíssemos segurar a comida no estômago, ainda havia esperança para nós!

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From Panama to Colombia there is no passage by land, in fact there is, but there is no road, just jungle, savagely populated by kidnappers, guerrillas, drug dealers and other such scoundrels. So we could only cross by air or sea. Taking a plane would be a quick fix, though pricey, due to excess luggage which we would have to pay, the journey by sea could be done in a 4×4 from Panama City, and then in three different speedboats, and that is the choice of many cyclists although it is a risk to the bikes that go all the way bumping against the boat.

The alternative, that we ended up chosen, was going on a sailboat. Not the cheapest of solutions, but it is a five day trip with all food included and stop at the idyllic archipelago of San Blas, the ultimate cliché of paradise.

Thus we boarded on the Wild Card, a huge sailboat, already a bit worn by time, commanded by Captain John and crewed by Debbie and Mick. As there is no marina in Portobelo it was necessary to take everything, including bikes, on a small boat, and then hoist all the luggage to the sailboat. The previous instructions were that we should make a small backpack with the absolutely essential, since the rest of the luggage would be stored away until the end of the trip. When I saw where they were going to put the bikes I gulped and gave the best of me to trust the knots, made by the crew, who were holding our poor girls outside the deck at the rear of the boat where everybody assured us that there wouldn’t be any splashes.

Once we were all aboard – we, the crew and eleven other fellow travelers of various nationalities and ages, which in common had a backpack on their backs as a travelling mode – we quickly put on the swimming suits and we took our first sea bath. I (Sara) confess that when I peered to the deck and saw that I had to dive from there I felt a little scared since the water seemed a bit distant, but the lack of choice mad me dive with my feet and my hands covering my nose. As I repeated the same movement several times a day, those days became one of my favorite moments of the trip.

With us all feeling a little fresher, Debbie came and talked to us about safety and of what we might expect over the coming days, putting emphasis on the last two, that would be the worst, with rough seas and a hard time to be on deck. Her advice was to take all the dramamines (pills for motion sickness) we needed and sleep as long as we could. So we couldn’t even guess that those first hours of the trip would be particularly hard so it was without fear that we saw Portobelo move away, then Drake’s Island, where the famous pirate is supposed to be buried, until the boat started to balance too much and we decided to lie down. Still on my bikini and already feeling quite sick I asked Pedro to go down into the cabin and get me a t-shirt and some dramamine. The poor guy attended my request and when he returned and came livid with the news that he had already vomited. This sufficed for the two, in solidarity and one at a time, started throwing overboard lunch and breakfast until there was nothing left on the stomach to send out.

Iwe had a hard time, abandoned to our own luck, but no one could do anything for us and we had to the best we could to manage the situation, which was basically endure with it. Although we were the first to start the show on the boat, some fellow travelers decided to join our misfortune, the captain, accustomed to these kind of things, before bringing dinner, came to ask who was going to to eat. I thanked him (in my mind) for not trying to put food in front of me. At one point the sea was calmer, the sail hoisted leveled the ground, and we could finally sleep without any interruptions to give more food to the fish. Around three in the morning we anchored, but we had no courage to stand up, let alone go down to the cabin, so we spent the night on deck, though feeling cold, especially Pedro who didn’t remembered to bring a t-shirt for himself. I remember seeing the moon rising and thinking that it was beautiful, too bad I was a wreck, but at dawn we woke up and realized that maybe we could hold food in our stomachs, there was still hope for us!

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