Cinco dias de pés descalços e cabelos salgados | Five days barefoot with salty hair

Depois da tortura da primeira noite, lá conseguimos tomar o pequeno-almoço, e todas as refeições a partir de então, e começar a tomar os comprimidos mágicos, até os nossos corpos de habituarem ao balanço constante, quase um dia depois. Ao acordar já estávamos em San Blás, junto a Porvenir, onde o capitão levou os nossos passaportes para nos carimbarem a saída do Panamá.

Cumpridas as formalidades navegámos até junto de uma das 365 ilhas que compõem o arquipélago e que não são mais que pequenos pedaços de areia (aos quais se dá a volta em cinco minutos ou menos), com vegetação rasteira no meio e muitos coqueiros. Protegidas pelos corais, quase não há ondulação e o mar é azul turquesa, nalguns sítios tão transparente que se consegue ver o fundo até uns oito metros de profundidade. Os afortunados habitantes destas ilhas são os Kuna Yala, um povo indígena semi-autónomo em relação ao estado do Panamá, e que, felizmente, não podem fazer negócios com estrangeiros, razão pela qual não existem hotéis, restaurantes ou qualquer tipo de serviço, o que faz com que as ilhas permaneçam quase intocadas.

Ao longo dos anos, o capitão do barco foi-se tornando amigo de alguns Kunas, pelo que pudemos visitar algumas ilhas. Na primeira onde desembarcámos vivem cerca de 150 pessoas, em casas construídas com o que a natureza lhes oferece, e que vendem algumas peças de artesanato. O capitão deu-nos pacotes de bolachas para darmos às crianças, acto que acabou por se revelar desconfortável, mas ainda assim conseguimos falar com alguns dos homens, os únicos que sabem espanhol, e perceber o orgulho que sentem nas suas ilhas e na sua gente.

O mecanismo que levanta a âncora estava avariado, pelo que, uma vez mais, com a ajuda dos homens a bordo levantámos âncora e seguimos no passeio, desta vez parando junto a uns corais onde fizemos snorkeling para observar os peixes coloridos e mais tarde desembarcámos noutra ilha, habitada apenas por um casal, que nos serviu água de côco, ainda no recipiente original, e à qual juntámos um pouco de rum, fazendo assim o coco loco. E se os nossos corpos se foram habituando ao barco, chegar a terra era sempre sinal de sentir tudo a balançar novamente.

O dia seguinte trouxe-nos a melhor parte da viagem. Ancorámos entre três magníficas ilhas, onde ficámos dois dias, e foi passar o tempo a saltar do barco, nadar até às ilhas, aproveitar a areia branca para apanhar banhos de sol, ver as estrelas do mar, fazer uma fogueira à noite, andar à volta das ilhas, descansar à sombra no convés, partilhar rum com coca-cola, deleitarmo-nos com as maravilhosas refeições que subiam através da escotilha, não olhar para o relógio, apreciar o jantar de marisco com direito a duas lagostas por pessoa, fazer novas amizades, ouvir boa música (e alguma má também), aproveitar a praia deserta que havia por detrás da ilha mais bonita e nadar até não poder mais. Foram dias mágicos mas o momento mais temido aproximava-se, aquele em que havíamos de voltar a mar alto e sofrer à conta do balanço implacável.

De uma forma ou de outra todos tentámos preparar-nos. Não havia duches de água doce e seguindo os conselhos da Debbie, lavei o cabelo e o corpo com champôo, mergulhei para o tirar e depois o Pedro deitou-me uma garrafa de água doce por cima para tentar tirar algum sal. No quarto arrumámos tudo para que nada rolasse, enchemos as garrafas de água e começámos a tomar dramamine à hora do almoço. Às quatro da tarde estendemo-nos no convés, tentando pôr o corpo a acompanhar os movimentos do barco, alguém disse “vemo-nos do outro lado” e eu pensei, agora é cada um por si!

Afortunadamente, e contra todas as previsões, o mar estava tranquilo, os dramamines fizeram efeito e duas horas depois ainda estávamos todos a sorrir. Um pouco desconfiados jantámos e fomos dormir, mas o dia seguinte trouxe o mesmo tipo de maravilhosa sensação, nada que fazer, por muito bem que nos sentíssemos não arriscámos ler, alguma sonolência graças aos comprimidos, fugir um pouco ao sol do meio-dia que mais tarde ficou tapado por nuvens e até uns dez golfinhos resolveram dar um ar da sua graça, saltando de onda em onda enquanto acompanhavam o barco. Arriscámos então mais rum com cola a meio da tarde, e depois do jantar, já só com o Knut e a Salometti no convés apreciámos a nossa última noite a bordo ao som dos Talking Heads. Estávamos determinados a passar a noite ao relento, desta vez já com mantas, mas a certa altura as ondas começaram a molhar-nos e descemos. O mar foi ficando picado e eu lembro-me de ter que me agarrar ao colchão para não rebolar para cima do Pedro, mas nenhum de nós teve a mais pequena sensação de enjôo ou mesmo a consciência de que a situação estava um pouco complicada.

Quando acordámos Cartagena e América do Sul estavam à distância de uns duzentos metros de barco, e o capitão, à medida que íamos saindo para o pequeno bote, devolveu-nos os sapatos que no primeiro dia tinha colocado num saco.

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After the torture of the first night we got to have breakfast, and all meals from then on, and start taking the magic pills, until our bodies got used to the constant rocking, almost a day later. Upon waking we were in San Blas, near Porvenir, where the captain took our passports to stamp us out of Panama.

Once the formalities were done we sailed and stopped near one of the 365 islands that make up the archipelago and are no more than small pieces of sand (you can around them in five minutes or less), with low vegetation in the middle and coconut trees. Protected by a reef, with almost no waves and a turquoise sea, in some places so transparent that one can see the bottom until about eight meters deep. The fortunate inhabitants of these islands are the Kuna Yala, a semi-autonomous indigenous people in relation to the state of Panama, and, fortunately, can not do business with foreigners, which is why there are no hotels, restaurants or any type of service, which causes the islands to remain almost untouched.

Over the years, the boat captain became friends with some Kunas, so we could visit some islands. On the first there where about 150 people living in houses built with what nature offers them, and they sell some handicrafts. The captain gave us packets of biscuits to give to the children, an act that turned out to be uncomfortable, but still we got so talk to some men, the ones who know Spanish, and realize the pride they feel in their islands and their people.

The mechanism that raises the anchor was broken, so, once again, with the help from the men aboard we raised anchor and went on the tour, this time stopping at a few corals for snorkeling where we could observe colorful fish and later went to another island, inhabited only by a couple who served us coconut water, still in it’s original container, to which we added some rum, thus making it a crazy coconut. And if our bodies were getting used to the boat, going to land we always felt everything was moving.

The next day brought us the best part of the trip. Anchored between three magnificent islands, where we stayed two days, and spent our time jumping from the boat, swimming to the islands, enjoying the white sand to soak up the sun, seeing the starfish, making a campfire at night, walking the around the islands, relaxing in the shade on the deck, sharing rum and coke, delighting ourselves with wonderful meals that came up through the hatch, not looking at the clock, enjoying a seafood dinner where we were entitled to two lobsters per person, making new friends, listening to good music (and some bad too), enjoying the deserted beach that was behind the most beautiful island and swimming a lot. Those days were magical days but the most dreaded time approached, one in which we had to return to high seas and suffer on account of the relentless swing.

In one way or another everyone tried to prepare themselves. There was no freshwater showers during the entire trip so following Debbie’s advice I washed my hair and body with shampoo, I dived to the sea to take it of and then Pedro lay a bottle of fresh water on top of me to try to take some of the salt. In the cabin we packed everything so that nothing rolled, we filled our water bottles and started taking dramamines around lunchtime. At four o’clock we lye down on the deck, trying to make the body follow the movements of the boat and someone said “See you on the other side” and I thought, now it’s every (wo)man for himself!

Fortunately, and against all predictions, the sea was calm, the dramamines made effect and two hours later we were all still smiling. Slightly suspicious we had dinner and went to sleep, but the next day brought the same kind of wonderful feeling, nothing to do (we were not confident enough to try to read), we were feeling sleepy thanks to the dramamine pills, for a while we had to escape from the sun on the deck but then it became cloudy and then around ten dolphins decided to show off, leaping from wave to wave as they accompanied the boat. So we decided to risk some rum and Coke in the afternoon, and also after dinner, when on the deck there were only Knut and Salometti, so we enjoyed our last night on board to the sound of the Talking Heads. We were determined to spend the night outside, this time with some blankets, but at some point the waves began to wet us and we went down. The sea was getting rough and I remember having to hold on to the mattress in order not to roll over Pedro, but none of us had the slightest qualm or even the awareness that the situation was a little complicated.

When we woke up Cartagena and South America were at a distance of two hundred meters of the boat, and the captain, as we went out into the dinghy, gave us back the shoes, that he had taken from all of us on the first day.

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