As Montanhas Más | The Evil Mountains

Olhando para trás os dois dias em Raxrujá anteviam o que seria a atmosfera que nos acompanharia nos três dias seguintes. Sem haver hostilidade ou insegurança, a gente local não se revelava, pelo contrário. No comedor Vidal, acompanhados dos nossos recém amigos Rob e Dan, a comunicação ocorria por jatos intermitentes de lucidez e escárnio. A rapariga que nos atendia deixava no ar algumas afirmações, respondendo ora sem nexo ora repetindo o que perguntávamos, e nós ficávamos sem saber se a mensagem havia chegado em pleno. Entretanto o posto de transformação ao fundo da rua explodiu com fagulhas e todo o centro do povo se enegreceu. Lá conseguimos comer, primeiro à luz do telemóvel da nossa empregada, e depois sob as despesas do gerador que algum dos homens da botica lá se dignou a ir arrancar às traseiras do edifício.

Na vila, as interações continuavam sem assertividade. A tentativa de comprar umas bananas era recebida com risos escondidos em caras viradas de esguelha, um gelado era comprado através da transparência do vendedor assumindo quase só a troca de quetzais. A escuridão assolava não apenas as luzes da rua, mas nessa altura não lhes dávamos a importância devida. Saímos no dia seguinte à aventura da caverna pela manhã ainda antes do Rob e do Dan, e os primeiros quilómetros eram uma ilusão do que nos esperava. Dos primeiros 20 quilómetros apenas uma subida de 200 m de perfil muito inclinado, em asfalto imaculado, nos fez suar, mas foram concluídos sem perder a dignidade de apear da bicicleta. Na aldeia que se encontrava no outro lado da encosta parámos para um refresco e um snack, mas como era demasiado cedo para nos empanturrar-mos e queríamos manter-nos despertos para a subida, decidimos não almoçar. Seguimos por mais um vale que nos brindava com todas as nuances de verde, ao fundo a encosta aparecia cada vez mais vertical à medida que nos aproximávamos.

Mas o pior chegou uns 500 metros após iniciar-mos a subida. O alcatrão a estrear deu lugar a um piso irregular composto por terra batida, que lavada pelas chuvas já ia longe encosta abaixo, deixando atrás calhaus e sulcos que nos faziam resvalar pedalada após pedalada. Nem uma centena de metros foram necessários para abandonar-mos os selins. A única maneira de superar a encosta seria a força de braços: quatro por bicicleta à vez; ora uma ora outra. E assim subíamos os dois empurrando uma das bicicletas e descíamos para empurrar a outra numa espécie de dejá vú doentio. Uma hora e pouco mais de um quilómetro depois estávamos exaustos e esfomeados, mas não havia onde parar, apenas encosta acima de um lado e encosta abaixo do outro. A Sara sugeria voltar para trás mas isso não me agradava, era esforço deitado fora. Sentámo-nos na única sombra que se nos deparou, mesmo na berma da estrada com os pés no canalete cheio de pedras e terra deixados para trás pelas enxurradas de anos passados. Aqui e ali olhos curiosos a uma distância segura perscrutavam sobre nós, protegidos pelas pedras que ladeavam a estrada. Comemos um pouco de pão com manteiga de amendoim e doce e entretanto passavam alguns camiões e pick-ups com algumas pessoas, e algumas com espaço para nos levar, mas como comíamos, resolvemos que tentaríamos mais tarde uma boleia, depois da nossa necessidade mais essencial estar minimamente satisfeita. A natureza errática do trânsito ditou que, depois de terminada a nossa refeição, não haveria mais veículos a subir a encosta com espaço para nós e bicicletas, e na verdade os que transitavam maioritariamente desciam. Parámos alguns para saber se haveria algum sítio onde nos podíamos reestabelecer de água, e após obtermos informações alarmantes (que o próximo povoado era a 2 a 3 horas de carro!) – lá conseguimos reformular a pergunta de modo a obter uma resposta que nos garantia que o nosso esforço montanha acima não nos iria deixar numa posição delicada, e voltámos a empurrar.

Uma hora passada estávamos prontos a encostar e passar a noite numa clareira perto de um trecho plano da estrada, antes de esta voltar a subir. Enquanto investigávamos o terreno, ladeira acima vinham mais carros. O primeiro, de passageiros e com estrutura no tejadilho para bagagem, vinha cheio até ao topo com pessoas e carga, mas também com os nossos amigos ciclistas mais recentes, que ao lado das suas bicicletas, seguiam empoleirados no tejadilho. Enquanto acenávamos, mesmo atrás seguia um camião de carga que parou pois o condutor queria tirar uma foto connosco. Acedemos de bom grado e vendo que pouca carga tinha, perguntámos-lhe se nos poderia ajudar na tarefa de subir a encosta. Ele acedeu sem hesitar e apresentou-se como Hugo. Morava na aldeia seguinte que ficava a 3 km estrada acima, e que dava pelo nome de Chirreacté e onde acampámos sob os olhares e até alguns toques inquisitivos de crianças que pouco ou nada comunicavam connosco, sendo a velada apenas interrompida pela meia-hora que deve ter durado o jantar. O retorno dos jovens veio sob multiplicado por 3, em número e intensidade. Sentia o perímetro de cortesia a ser resvalado, ora aqui ora alí, e após algo ter aterrado sonoramente sobre a tenda pus a minha cara de poucos amigos e em espanhol disse-lhes de forma sisuda que não estava nada contente com eles e que não era maneira de nos acolherem na sua terra. Funcionou. Os garotos dispersaram e daí em diante, apenas restaram olhos atentos mal escondidos atrás das paredes e pedras que rodeavam o sítio onde acampámos, e foi sob esta sensação de controlo juvenil que comemos, nos lavámos e nos recolhemos para dormir, esperando partir o mais cedo possível no dia seguinte.

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Looking back, the two days in Raxrujá foresaw what would be the atmosphere that would accompany us for the next three days. With no hostility or insecurity, the locals did not reveal, much on the contrary. In Comedor Vidal, accompanied by our new friends Rob and Dan, communication occurred by intermittent interspersed spurts of lucidity and scorn. The girl who served us left some asurness in the air , responding sometimes making no sense, sometimes repeating what we asked, and we kept wondering if the message had arrived in full. Meanwhile the electrical power transformer in the post down the street exploded with sparks and the whole center of the town was in darkness. We managed to eat, first the mobile light of our maid , and after at the costs of the generator that one of the men from the cantina deigned to go start up at the rear of the building.

In the village, after dinner, the interactions continued without assertiveness . The atempt to buy some bananas was greeted with hidden laughter in girls looking at us sideways, an ice cream was purchased through the transparency of the seller assuming almost exclusively the exchange of quetzals. The darkness plagued not only the street lights, but then we did not give it the due importance.

We left the next day to the adventure of the cave in the morning, even before Rob and Dan, and the first kilometers were an illusion of what awaited us. In the first 20 kilometers only a rise of 200 m very inclined ascent, in immaculate asphalt, made ​​us sweat , but have been completed without losing the dignity of getting off the bicycle. In the village that was on the other side of the hill we stopped for refreshment and a snack , but as it was too early to eat a large meal and we wanted to keep ourselfs awake for the climb, we decided not to eat lunch there. Followed by another valley tainted with all nuances of green, the slope tha followed appeared to be increasingly vertical as we approached.

But the worst came about 500 meters after we start the climb. The pristine tarmac led to an uneven pavement consisting of dirt, most of which had been washed away by the rains and was already downhill by now, leaving behind stones and grooves that made us slip pedal stroke after pedal stroke. Not even a hundred yards were required for us to leave the saddles. The only way to overcome the slope would be the force of hands: four per bike at the same time; first one and then the other. And so we climbed one of the two pushing bicycles and descended to push the other in a kind of deja vu sick . An hour and just over a mile later we were tired and hungry, but there was no where to stop, just up the hill on one side of the road and down the other side. Sara suggested go back but this did not please me, it was just thrashing the effort. We sat in the only shade that we could find, just on the roadside with his feet on the drainage, full of rocks and dirt left behind by the floods of past years. Here and there prying at a safe distance, eyes peered over us, protected by the rocks that lined the road. We ate some bread with peanut butter and jam and meanwhile some trucks and pick-ups with some people passed by, and some with space to take us, but as we were eating, we decided that we would try a ride later, after our most essential needs were minimally satisfied. The erratic nature of the traffic dictated that, after finishing our meal, there would be no more vehicles climbing the slope with space for bicycles and us, and indeed they mostly passed us by going down rather than up. We stopped to see if there would be some somewhere where we could restore the water supplies, and after we get alarming information (that the next town was a 2-3 hour drive away!) – after rephrasing the question we got an answer that guaranteed the that our uphill effort would not leave us in a delicate position, and we again pushed.

One hour later we were ready to pull over and spend the night in a clearing near a flat stretch of road, before it go back its usual inclination. While were investigating the terrain, uphill came more cars . The first of passengers and luggage on the roof structure, was full to the top with people and cargo, including also with our newer cyclist friends, which aside of their bicycles, followed perched on the roof. While we waved at them, right behind followed a truck that stopped because the driver wanted to take a picture with us. That we done willingly and seeing the little cargo he carried I asked him if we could help us in the task of climbing the slope. He agreed without hesitation and introduced himself as Hugo. He lived in the next village which was 3 miles up the road, and went by the name Chirreacte. There we camped under the look, and even some touches, of inquisitive children who communicated little or nothing with us, being the veiled interrupted only by the half-hour that should have lasted dinner.

The return of young people came multiplied by 3 in number and intensity. We soon felt the perimeter of courtesy to slip, now here now there, and after something had landed loudly on the tent, i resolved to put my “face of few friends” and in spanish told them in a serious way that I was not happy with them and that was no manner of receiving us as guests. It worked. The boys dispersed, and thereafter only remained attentive eyes barely hidden behind walls and rocks that surrounded the site where we camped, and was under this feeling of youth control what we ate, we washed and turned in to sleep , expecting to depart early as possible the next day.

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