A travessia | The crossing

Durante a semana de espera fomos contactando o Don para saber o que tínhamos que levar, como se iria processar a viagem e todas as dúvidas que nos inquietavam o mais. Chegámos à marina terça-feira à noite e enfiámos a nossa extensa bagagem, juntamente com toda a comida comprada para a semana na cabine do barco e fomos jantar com o Don e o Doug. Logo naquela noite o Don mostrou-nos como funcionava o autoclismo, – implicava uma série de válvulas e botões para que as bactérias fossem devidamente eliminadas e as águas do oceano não poluídas – o fogão, num processo de três passos diferentes, a electricidade, a água doce. Tudo num barco tem um processo diferente do um mero apertar ou rodar um botão, puxar uma válvula ou abrir uma torneira.

Quando saímos da marina, já na quarta-feira, eu estava verdadeiramente intimidada com a quantidade de procedimentos, nomes diferentes de cada corda, vela, instrumento de navegação, ainda por cima todos em inglês, cada objecto com uma função diferente. Entrámos no barco como tripulação, mas eu, na minha habitual falta de jeito para tudo o que implique processos manuais e mecânicos, comecei a ficar nervosa a pensar em tudo o que ia fazer de errado antes de acertar, e pelo caminho ainda estragar alguma coisa cara ou mandar alguém ao mar. Já o Pedro estava rei e senhor, mexendo em cordas, velas, fazendo mil perguntas matemáticas, relacionadas com vento, ângulos e o diabo a sete.

Pouco depois de partirmos, um contacto do Doug, no rádio VHF veio alterar os planos, aparentemente uma trepidação no motor estava a preocupá-lo e temia não ser possível fazer a viagem directamente até Puerto Vallarta. Afinal sempre íamos até Mazátlan.

Como previsto o mar estava liso e o vento de feição, e entre o motor e a vela fomos avançando à estonteante velocidade de 9 Km por hora. Num cruzeiro haverá muito que fazer, mas num barco de 13 metros, em constante andamento resta-nos pouco mais que observar os golfinhos que de vez em quando dão um ar da sua graça saltando ao lado do barco, maravilhar-nos com o pôr-do-sol, ler, dormir, comer e procurar outros barcos com os binóculos. Isto enquanto vigiamos se o piloto automático se mantém na rota prevista, ou se vêm outros navios na nossa direcção. Como diz o Don, tirando os momentos de tratar das velas ou de ancorar ou atracar, tudo o resto são períodos de longa monotonia e descanso. Recomendável, portanto, a quem aprecia longos momentos de introspeção!

A primeira noite foi passada em descanso num ancoradouro na Baía dos Mortos, ainda junto à costa da Baja California, e aí o Pedro teve oportunidade de fazer a sua primeira asneira ao leme, quase batendo num dos dez barcos aí ancorados, que tinham saído de La Paz nesse mesmo dia. A minha vez chegou pela manhã, quando fiquei incumbida de manejar o barco, enquanto o Don e o Pedro tratavam das velas. Sem qualquer tipo de sensibilidade, tentei cumprir as instruções, manter o barco a 115º graus, o que eu não sabia é que bastavam ligeiros toques, e não grandes guinadas no leme, que fizeram o veleiro quase dar uma volta completa, primeiro para um lado e depois para o outro. Nos dois casos, uma rápida ida do capitão até ao leme, evitou o pior.

Desde que saímos da baía sabíamos que não íamos voltar a ver terra até chegarmos ao continente, cerca de dois dias a andar dia e noite. Preparámo-nos então para fazer turnos e eu fui dormir cedo esperando ser acordada por volta das três/quatro da manhã. E acordei, mas não pelas melhores razões. O vento tinha mudado, o mar estava agitado e o Don decidiu, com a ajuda do Pedro, ligar o motor, que por acaso, ficava mesmo ao lado do nosso quarto. Ainda assim dormitei mais umas três horas e depois de definitivamente acordada ainda foi necessária mais uma hora a ganhar coragem para me levantar, tal era o balanço do barco.

Valeram-me as pastilhas para o enjôo, e o tempo que passei deitada no convés, tentando recuperar do mareio, caso contrário, parece-me, vomitar teria sido o meu passatempo, tal era a violência com que o veleiro nos embalava. O simples acto de ir à casa-de-banho revelava-se uma tortura, e ler para ver o tempo passar estava totalmente fora de questão. Eram só oito e meia da manhã e o desespero crescia de forma galopante dentro de mim. Sentada no convés ia dormitando, acordada apenas por pequenos banhos de ondas mais atrevidas, que se aventuravam dentro do barco. Eventualmente consegui dormir mais de dez minutos, e depois de tomado um chá amavelmente feito pelo Don, que não parecia afectado pelas amplas movimentações do veleiro, mudei a minha atitude e comecei a cantar todas as músicas possíveis e imaginárias de que me fui lembrando. E assim se foram passando as longas horas, com o colete de segurança amarrado a uma trela presa ao convés, entre vigia, cantorias, alguns banhos, sob um céu carregado de nuvens e apenas mar à vista. A expressão casca de noz ganhou assim um sentido muito específico. Acontece que o meu repertório não chega a tanto e pelas dez da noite eu estava acabada! A juntar à festa começámos a ver trovoadas à distância, em diferentes direcções. Felizmente as luzes que se viam na costa ajudavam a consolar, se caíssemos ao mar sempre havia uma direcção para onde tentar nadar.

Por volta das duas da manhã, todos em estado de total exaustão, começámos finalmente as manobras de entrada no ancoradouro de Mazátlan e uma hora depois abríamos uma garrafa de vinho para festejar a façanha.

Esta parte da nossa viagem foi uma das mais difíceis, e quaisquer ideias que nos tenham passado pela cabeça quando se abriu esta possibilidade de viajar à boleia de um barco imediatamente se desvaneceram. Em retrospectiva, gostava de tentar pelo menos mais uma vez, já que me parece possível ter uma experiência mais tranquila. Veremos o que acontece, mas para já mantemos os pés nos pedais!

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During the waiting week we kept contacting Don to know what to bring, how would the trip be and all the other doubts we had. We reached the marina on Tuesday evening and got our extensive luggage, along with all the food purchased for the week, in the cabin of the boat, and went to have dinner with Don and Doug. In that same night Don showed us how the toilet worked, – it involved a series of valves and buttons for properly remotion of the bacteria and the consequent non pollution of ocean waters – the stove , a different three-step process, electricity, freshwater. Everything on a boat has a process other than a mere push or rotate of a button, pull a valve or open a faucet.

When we left the marina, on Wednesday morning, I (Sara) was really intimidated by the amount of procedures, different names of each rope, sail, navigation instrument, each object with a different function, and all explained in English. We entered the boat as crew, but I, in my usual clumsiness to everything involving manual and mechanical processes, started to get nervous thinking about everything that I was going to do wrong before I could do it right, and along the way screwing something up or send someone overboard. Pedro, on the other hand was like a fish in the water, stirring up ropes, sails, doing a thousand mathematical questions, related with wind angles and what else he could think of.

Shortly after we left, the VHF radio brought some news that would change our plans. Doug had a trepidation on his engine that was worrying him and he feared it would not be possible to travel directly to Puerto Vallarta. After all we were going to Mazatlan as originally planned.

As predicted by the weather report, the sea was smooth and the wind great, so between the motor and sailing we were advancing to the dizzying speed of 9 Km per hour. I guess in a cruise ship there will be plenty to do, but on a boat of 42 feet in constant progress, we had little more to do than to watch the dolphins that occasionally lend an air of grace jumping alongside the boat, marvel at the sunset sun, read, sleep, eat and look for other boats with the binoculars. This while we watched if the autopilot maintains the planned route, or if other ships come in our direction. As Don says apart from the time we are moving the sails, anchoring or mooring, all the rest are long periods of boredom and rest. Therefore recommended to those who enjoy long moments of introspection!

The first night was spent at rest in a anchorage in the Bay of the Dead, this near the coast of Baja California, and then Pedro had the chance to make his first blunder at the helm, almost hitting one of the ten anchored boats that had left La Paz in the same day. My turn came next morning when I was tasked to drive the boat, while Don and Pedro dealt with the sails. Without any kind of sensitivity, I tried to execute the instructions, keep the boat 115º degrees. What I did not know is that some light movements in the rudder would be enough, and so, with major shifts at the helm, the boat almost did a full circle, first to one side and then the other. In both cases, a quick trip from the captain to the helm avoided the worst.

Since we left the bay we knew we would not see land again until we get to the mainland, about two days sailing day and night. We prepared to do shifts and so I went to bed early waiting to be awake around three/ four in the morning. And I woke up, but not for the best reasons. The wind had changed , the sea was rough and Don decided, with the help of Pedro, to start the engine, which incidentally, was right next to our room. I still dozed for three hours and then definitively woke up, yet I needed another hour to gain the courage to lift, such was the rocking of the boat .

The salvation came in the form of seasickness pills, and some time lying on the deck, trying to recover from the sickness, otherwise, it seems to me, throw up would have been my hobby, such was the violence that the sailboat rocked. The simple act of going to the bathroom turned out to be torture, and read to see time pass was totally out of the question. It was only half past eight in the morning and desperation was growing rampant inside me. Sitting on the deck I was dozing, awake only by small baths by the boldest waves, who ventured into the boat. Eventually I managed to sleep more than ten minutes, and after taking a tea, kindly prepared by Don, who seemed unaffected by the large movements the sailboat was making, I changed my attitude and started singing every imaginable song I could remember. And thus passed the long hours, with safety harness tied to a leash attached to the deck, between watches, singing, taking some baths, under an overcast sky and only sea at view. Turns out my repertoire is not quite as big and by ten o’clock I was finished! Adding to the party, we started to see lightning in the distance, in different directions. Fortunately the lights that we were know seeing on the coast helped to think that if we went overboard would at least have a direction to try to swim.

Around two in the morning, all in a state of utter exhaustion, we finally began maneuvering to enter the harbor of Mazátlan and an hour later we opened a bottle of wine to celebrate the feat.

This part of our trip was one of the hardest, and any ideas that have passed through our heads when we opened this opportunity, to travel by boat immediately vanished. In hindsight, I’d like to try at least once more, since it seems possible to me to have a quieter experience. We’ll see what happens for now we keep our feet on the pedals!

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3 pensamentos sobre “A travessia | The crossing

  1. Ola filhota agora já podes comparar um pouco como eu me sinto quando vou à pesca no mar e este esta um pouco bravo.A vida só é dura para as pessoas moles.Um beijo para ambos.

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