Deserto | Desert

Perguntei (Sara) a toda a gente que já tinha feito o caminho entre El Rosario e Loreto se havia sítios suficientes para nos abastecermos de água ao longo do caminho. “Sim”, foi a resposta, “pelo menos um sítio a cada hora”. Ora, se uma hora de carro equivale a um dia de bicicleta, achei que seria suficiente para conseguirmos passar os 700 Km de deserto sem morrermos à sede. Era a minha principal preocupação, mais do que a comida, que conseguimos transportar para praticamente uma semana, mais do que os banhos, mais do que ventos, altitudes ou temperaturas altas ou baixas. Água, água, água!

À mistura com esta preocupação/obsessão sentia uma certa excitação. Íamos atravessar um deserto! Na minha cabeça via dunas, areia sem fim, eventuais problemas com orientação. Mas este deserto, para nós meninos certinhos, não teve esse tipo de problemas. Bastou seguir a estrada de alcatrão e não houve areia que nos parasse as bicicletas, nem possibilidades de nos perdermos. Esta região é muito famosa pela corrida Baja 1000, e aí sim, lá vão os todo-o-terreno, carros e motos pelo meio de montanhas e caminhos de terra batida e areia.

Ninguém mentiu e encontrámos sempre sítio para comprar água potável. A cada 50 ou 60 Km há ranchos que servem refeições, pequenas povoações com uma mercearia básica, restaurantes, numa povoação maior dois ou três hotéis, e e até dois parques de campismo para auto-caravanas. À pergunta, de que é que vivem os habitantes destas terras? A resposta inevitável só pode ser, da enorme quantidade de camionistas que circulam nas estradas da Baja California e que precisam de sítios para comer, descansar, tomar banho e abastecer.

Mas aqui a vida é dura para quem vive, não para quem passa. A água é um bem precioso. A potável é trazida por camiões que abastecem os depósitos que se encontram no cimo dos telhados. A não potável está em bidons no solo, recolhida da chuva ou de outra fonte, e serve para tudo o que não seja beber e cozinhar. Às vezes há sanitas, mas a água para as despejar sai dos bidons no solo, outras vezes são meras latrinas. Toda a electricidade durante o dia é fornecida por painéis solares e à noite são ligados os geradores a gasolina para umas horas extra de luz. Para um luxuoso banho de água quente a água é aquecida a lenha, mas isso é uma raridade. Há criação de gado, que come não se sabe muito bem o quê, rancheiros a cavalo, pequenas lojas que vendem de tudo um pouco, pilhas, maquilhagem, imagens de santos e de Nossa Senhora da Guadalupe, papel higiénico, refeições instantâneas de noodles, alimentos enlatados. Existe a Laguna Chapala, que nesta altura do ano está completamente seca. E no meio há Cataviña, o sítio mais desenvolvido, com duas mercearias, três hóteis e uma “bomba” de gasolina, composta por marido e mulher a vender o precioso líquido em bidons a um preço exorbitante. Porém, o que mais assusta é o isolamento dos habitantes do deserto dos Círios. A necessidade de conduzir mais de 150 km através de uma estrada pelo meio de montanhas de paisagem árida para ter acesso a lojas, produtos mais diversos, internet ou mera companhia deixa-nos a pensar que é preciso ser valente para viver no meio do nada. E, com excepção destes locais isolados, de El Rosario a Guerrero Negro, nada mais há que 360 km de puro deserto.

Depois do apelo aos sentidos que experimentámos nas povoações próximas da fronteira, nas explosões de cor em casas, anúncios, comidas, na música na rua, sempre a incitar um qualquer bailarico improvisado, nos cheiros de carne e frango a assar no carvão ou de mariscos e peixe fresco prontos a cozinhar, nas crianças a brincar pelas ruas e nas pessoas em constante passagem, chegou a vez do contrastante deserto. Vastidão, aridez, castanho e verde, apenas quebrado pelos tons azuis, rosa e alaranjado do céu, ausência de casas, pessoas, sons e cheiros.

O deserto estende-se por uma serra, obrigando-nos, uma vez mais, a usar os nossos recursos físicos mais esforçados para a subir, a temperatura não foi extrema, o Kansas foi de longe, muito pior, mas houve momentos menos fáceis, e a paisagem revelou-se aos nossos olhos verdadeiramente especial. Cactos de todas as formas e feitios, cactos bonitos e perfeitos daqueles dos livros do Lucky Luke, círios (que só existem aqui e na Síria), cactos estranhos, quase como se fossem uma antevisão de uma exploração inter-planetária.

A travessia foi feita com a Flurina e o Samuel, e com eles partilhámos dois episódios muito especiais.

Em todos os ranchos e restaurantes onde pedimos para acampar nas traseiras a resposta foi um imediato sim, mas numa das noites a paisagem era tão convidativa que decidimos acampar no meio do deserto, a 10 Km da cidade de Catavina. Em pequena eu tinha um livro com o título “Uma raposa do deserto”, e as ilustrações eram tal e qual o sítio onde ficámos. Areia, pedras grandes e muitos muitos cactos. Era tão perfeito que parecia quase um cenário. Felizmente não houve cobras, escorpiões ou tarântulas, animais típicos destas paragens que viessem estragar a perfeição do cenário, iluminado a uma quase lua cheia, que só pelas quatro da manhã nos permitiu maravilharmo-nos com a imensidão de estrelas que brilham com luz forte no meio de tanta escuridão. Infelizmente eu não sou muito boa a acordar durante a noite para me maravilhar por mais de dois segundos e por isso a minha apreciação, ainda em modo quase adormecido, devotou-se ao nascer do Sol.

O segundo episódio foi um raro momento de diversão ciclística. Uma descida suave, quase imperceptível, que se prolongou por 40 km e um fortíssimo vento pelas costas, fizeram-nos percorrer o caminho, numa só hora, em que a sensação de estar quase a voar foi constante. Mais um acontecimento único para a nossa curta carreira de ciclismo que nos deixou com um sorriso nos lábios por mais um par de horas, perdido somente pela violenta subida à hora de maior calor.

Pelo caminho ficaram cinco dias em que efectivamente pedalámos em conjunto com outras pessoas durante todo o dia, em que nos divertimos a jogar às cartas a quatro, em que passámos os últimos dias de pôr-do-sol às quatro e meia da tarde, em que tivemos um momento de tour de france a andar em pelotão, em que tirámos mil e uma fotografias, em que experimentámos o nosso chuveiro novo, em que nunca a expressão “a última coca-cola do deserto” fez tanto sentido, em que carregámos 17 litros de água de cada vez, em que ficámos fascinados com a diversidade de cactos e a beleza das paisagens.

E finalmente chegámos ao paralelo 28, assinalado por uma bandeira gigantesca do México, e que marca a fronteira entre os estados da Baja California e da Baja California Sur, e também a mudança da hora, passando o Sol a pôr-se às cinco e meia. A dez minutos de caminho fica Guerrero Negro e o regresso à civilização.

Esta cidade é uma das maiores fornecedores de sal do mundo inteiro, mas é mais famosa por um fenómeno invernoso. Centenas de baleias migram para a costa de Guerrero Negro, para terem as suas crias, e é possível, em excursões de barcos, observar estes enormes mamíferos marinhos a menos de meio metro de distância. As mães baleias até trazem as suas crias para junto dos barcos e levantam-nas na água para os turistas lhes fazerem festas. Infelizmente ainda não era a época das baleias, e tudo o que soubemos foi por terceiros que já tinham tido esta experiência.

Depois de dois dias de descanso e de reabastecimento, quer de forças quer de mantimentos, seguimos já só os dois para enfrentar o último troço de deserto.

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I (Sara) asked to everyone who had crossed the road between El Rosario and Loreto if there were enough places for us to get water along the way. ” Yes”, was the reply, “at least one place every hour.” If an hour’s drive equals a day of biking, I thought it would be enough to get by the 700 km of desert before dying of thirst. It was my main concern, more than the food, which we could carry for almost a week, more than the shower, more than winds, altitudes or high or low temperatures. Water, water, water!

Together with this concern/obsession I felt a certain excitement. We were going to cross a desert! In my head I saw dunes, lots of sand, problems with orientation. But this desert, for us people who follow the rules, had no such problems. All it took was to follow the tar road and there was no sand to stop the bikes, or possibilities of getting lost. This region is very famous for the Baja 1000 race and there the all-terrain cars and bikes pass through mountain paths and hit the sand.

Nobody lied and we always find place to buy drinking water. At every 50 or 60 Km we could find ranches that serves meals, small villages with a basic grocery store, restaurants, a village with two or three small hotels, and even two RV campsites. To the question, what do the inhabitants of these lands do to live? The inevitable answer can only be, the huge amount of truckers on the roads of Baja California who need places to eat, rest and bath.

Here life is hard for those who live, not to those who pass. Water is a precious commodity. Drinking water is brought by trucks that supply the deposits that lie on top of the roofs. Non drinking water is stored in big cans on the ground, that people collect during rains or have from a different source, and that caters for everything other than drinking and cooking. Sometimes there are toilets, but the water to pour it comes from the cans on the ground, other times they are mere latrines. All electricity during the day is provided by solar panels and at night people turn on their gasoline generators for some extra hours of light. For a luxurious shower of hot water, the water is heated with firewood , but this is a rarity. There are livestock, eating whatever they can find, horse ranchers, small shops selling a bit of everything, batteries, makeup, images of saints and Our Lady of Guadalupe, toilet paper, instant noodle meals, canned foods. There is the Laguna Chapala, which completely dry this time of year is. And in the middle there is Cataviña, the most developed place, with two grocery stores, three hotels and a “gas station”, consisting of a husband and wife selling the precious liquid in cans at an exorbitant price. But the most frightening is the isolation of the inhabitants of the Cirio’s desert. Some need to drive more than 150 km across a road through the mountains of arid landscape to access shops, several products, internet, or mere company. Makes us think that one must be brave to live in the middle of nowhere. And , with the exception of these isolated places, from El Rosario to Guerrero Negro, there is nothing more that 360 km of pure desert.

After the appeal to the senses that we experienced in the villages near the border, with bursts of color in homes , advertisements  food, with music on the street, always inviting to some improvised dance, with the smells of roasting meat and chicken in coal or seafood and fresh fish ready to cook, with children playing in the streets and people constantly passing, came the turn of the contrasting desert. Vast, arid, brown and green, broken only by the blue, pink and orange hues of the sky, no houses, persons, sounds and smells.

The desert stretches over a ridge, forcing us, once again, to use our most hardworking physical resources to clim, the temperature was not extreme, Kansas was far, far worse, but there was some not so easy times, and the landscape revealed itself to our eyes truly special. Cacti of all shapes and sizes, beautiful and perfect cacti, those of the Lucky Luke books, cirios (which exist only here and in Syria), strange cacti, almost like a preview of an inter-planetary exploration.

The crossing was made with Flurina and Samuel, and with them we shared two very special episodes.

In all ranches and restaurants where asked to camp in the back the answer was an immediate yes, but on one night the scenery was so inviting that we decided to camp in the desert, 10 km from the city of Catavina. When I was little I had a book with the title “A desert fox”, and the drawings were just like the place where we stayed. Sand, large stones and many many cacti. It was so perfect that it seemed almost a scenario. Fortunately there were no snakes, scorpions or tarantulas , animals typical of these parts to come spoil the perfection of the scene lit with a nearly full moon, that only at four in the morning allowed us to amaze ourselves with the multitude of stars that shine with strong light in midst of such darkness. Unfortunately I’m not very good to wake up during the night to marvel over two seconds, and so my appreciation, even if in a semi sleeping mode, was devoted himself to the sun rise.

The second episode was a rare moment of cycling fun. A soft, almost imperceptible descent that lasted for 40 km and a very strong tail wind, made us do entire distance in one hour, during which the sensation of flying was almost constant. A new experience for our short cycling career that left us with a smile for a couple more hours, lost only by the violent climb done at the hour of more heat.

Along the way were five days where we effectively ride together with others throughout the day, where we had fun playing cards with four, where we spent the last days of sunset at four thirty in the afternoon, in which we had a moment of tour de france riding in squad, where we took a thousand photographs , where we experienced our new shower , where ever the expression ” the last coke in the desert ” made so much sense, in which we were fascinated with the diversity of cacti and the beautiful landscapes.

And finally we reached the 28th parallel, marked by a giant Mexican flag, which settles the border between the states of Baja California and Baja California Sur, and also the time change, from the sun to set at five-thirty. A ten minute ride and we arrived is Guerrero Negro and return to civilization .

This city is one of the largest suppliers of salt in the world, but is most famous for a wintery phenomenon. Hundreds of whales migrate to the coast of Guerrero Negro, to have their babies, and it is possible to tour there in boats, watching these huge marine mammals less than ten feet away. The mother whales bring their young to the boats and lift them in the water for tourists to pet them. Unfortunately, it was not the season of the whales, so all we know was by others who already had this experience .

After two days of rest and refueling, both forces and groceries, we were ready, now the two of us alone, to face the last stretch of desert.

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4 pensamentos sobre “Deserto | Desert

  1. Olá! Que saudades dos tempos em que fiz uma improvável passagem de ano em Guerrero Negro a beber Tecate e a comer amendoins! 😊 de resto lembro os camarões grelhados acompanhados de margaritas em restaurantes de praias quase desertas com os pés na areia. O deserto e os seus cactos, muitos cactos. Tempos bem mais felizes que os de hoje!
    Adorei Mulege. Foram? Bjd

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