Santa Lupita de San Quintin | Saint Lupita from San Quintin

À saída de Ensenada decidimos unir forças aos suíços Sam e Flurina, e viajar em conjunto por alguns dias. Foi então que demos os primeiros passos nas terras áridas da Baja California, que o Pedro muito bem apelidou de pequeno Wyoming. Montanhas altas e muito secas, que depois dão lugar a vales férteis e agrícolas.

A estrada até La Paz (onde vamos apanhar o ferry para Mazatlan) é só uma e não há que enganar. Sempre de alcatrão, salvo quando estão em obras, às vezes com uma berma larga, mas na maioria das vezes só com espaço para uma faixa para cada lado. Até El Rosario, antes de entrar no deserto, a estrada vai passando por vilazinhas e pequenas cidades em que as ruas são sempre, e todas, em terra batida. Nestas fomos encontrando pequenos restaurantes e taquerias, baratos e muito convenientes para viajantes como nós. Regra geral as mesas estão cá fora e por isso deixamos sempre as bicicletas por perto. Depois de feito o pedido a comida não demora mais de cinco minutos a chegar à mesa, e é sempre muito fresca e saborosa, em doses muito mais aceitáveis que os exageros estado-unidenses. Os tacos de peixe e camarão são a especialidade da Baja California, mas já fomos experimentando diferentes tipos de carne assada, frango assado no churrasco e bife. Tudo, tudo em muito bom!

Tinham-nos dito que San Vicente era um pouco perigoso, mas foi logo ali que o Miguel parou para falar com o Pedro (eu tinha ido às compras), e nos ofereceu o almoço. A chegada a San Quintin foi um desafio, dado o nível de trânsito e algumas razias, mas foi o único momento (com excepção do primeiro dia) em que tivemos problemas, naquelas que nos avisaram vezes sem conta serem as perigosas estradas mexicanas.

Em San Quintin ficámos em casa do Gabino e da Lupita, que nos receberam como se fôssemos família. Ainda antes de chegarmos fomos a um centro de saúde onde nos disseram que não havia vacinas para a Hepatite A, e que o Hospital General ficava vinte quilómetros para trás. Resolvemos esperar e ver se os nossos anfitriões nos podiam ajudar. Logo para nossa sorte a Lupita é enfermeira nas urgências de um hospital e logo disse que se encarregava de perguntar às colegas se seria possível termos as vacinas. No dia seguinte não se fez rogada. Ainda não eram dez da manhã e veio a casa para nos dizer que as vacinas já lá estavam prontas nós. O filho Luís, levou-nos até lá na sua bicicleta e em menos de nada, e com singelas picas, ficámos imunizados para a vida.

Os membros desta família, que também inclui a Estephania, são das pessoas de melhor coração com quem já nos cruzámos na viagem. A cada menção da nossa partida, uma careta, um “porque é que não ficam mais um dia”, gostamos tanto de ter companhia! Toda a família muda de quarto sem qualquer problema, para que os ciclistas possam ter o prazer de descansar numa cama e estão sempre prontos a ajudar-nos com os nossos problemas, e a conversar, muito!

Ao segundo dia a Flurina teve uma infecção no estômago e já perto das onze da noite foi um pandemónio quando desmaiou à porta da casa-de-banho, e depois de reanimada largou, como por osmose, todos os fluídos que retinha no tracto gasto-intestinal, sem tempo de chegar ao devido receptáculo. A Lupita entrou em acção. Limpou-a, tratou dela, pediu ao Luís que lhe fosse buscar medicamentos à farmácia, que depois lhe injectou e tratou dela até já estar capaz de dormir. No dia seguinte veio-nos buscar às oito da manhã, eu fui de tradutora, e levou-nos ao hospital onde trabalha, e onde a Flurina foi muito bem assistida. Sem ter que esperar entrou directamente para o quarto e aí lhe foram feitas análises, administrado soro, antibióticos e analgésicos. Passadas três horas a desgraçada doente tinha recuperado as cores e já se sentia muito melhor. Eram onze e pouco e já o Sam conduzia o carro da Lupita de regresso a casa (ela pediu-me que o fizesse mas eu fiquei com medo de bater com um carro que não me pertence), com os medicamento que necessitava directamente entregues no hospital. No meio do azar a Flurina teve muita sorte e dois dias depois já estávamos prontos para partir.

Na nossa estadia em San Quintin celebrámos o terceiro aniversário do nosso primeiro beijo, que é como quem diz, do nosso namoro, com um belíssimo bolo que a Estephania nos cozinhou, e pela primeira vez desde que viajo decidi-me a fazer uma sobremesa, um salame de chocolate. Digamos que por culpa dos ingredientes mexicanos, e não pelos meus fracos dotes culinários, o bolo não estava assim nada de muito especial, mas o arroz de polvo e as areias do Pedro compuseram a festa! Ainda no capítulo da cozinha pudemos contar com as especiais mãos do Luís, que tal como o Pedro, depois de engenheiro, virou cozinheiro, e que nos brindou com pequenos-almoços inesquecíveis de chilaquiles com frijoles (uma espécie de massa com feijões) e nopales (cactos) com ovos. O Gabino também contribui para a festa quando chegou e trouxe queijo de vinho, manga com chile e outros petiscos mexicanos.

Estes dias foram de grane animação, mas na última noite ainda fomos a uma festa de anos do afilhado do Gabino e da Lupita. Foi com muita ternura que revivi festas da minha infância, algumas na aldeia dos meus avós, inclusive o batizado do meu irmão, onde a comida era totalmente feita pelas senhoras mais velhas da minha família que, de bata, iam preparando as refeições para os restantes convidados apreciarem. Neste caso a festa era numa tenda junto à casa, onde fomos recebidos como família e onde duas senhoras mais velhas, de bata, preparavam tortilhas com uma carne excelente, onde todos se riam muito, enquanto falavam num espanhol rápido demais para o entendermos. A festa incluiu a típica piñata mexicana e ainda um pequeno presente na forma de doce para os convidados. Aqui as coisas ainda são feitas à moda antiga, apesar do tema da festa serem os miniones, do filme, Gru – O Maldisposto.

Infelizmente chegou o dia da partida, e as despedidas são sempre difíceis, ainda mais quando a impossibilidade de voltar a ver alguém é praticamente uma certeza. Para nos animar, sabemos que vamos voltar a ver o Gabino pelo caminho algumas vezes até chegarmos a Loreto (daqui a oitocentos quilómetros).

Para a frente um novo desafio para o qual já nos vínhamos preparando mentalmente: 700 quilómetros de deserto!

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On leaving Ensenada we decided to join forces with Sam and Flurina, the Swiss couple and travel together for a few days. It was then that we took the first steps in the arid lands of Baja California, that Pedro dubbed small Wyoming. High and dry mountains, which then give way to fertile agricultural valleys.

The road to La Paz (where we are going to take the ferry to Mazatlan) is only one so we can’t go wrong. Always with tar, except when they have construction, sometimes with a large shoulder, but most of the time with only room for one lane to each side. To El Rosario, before entering the desert, the road goes through small villages and towns where the streets are always and all in dirt. There we found small restaurants and taquerias, cheap and very convenient for travelers like us. Usually the tables are outside and so we always leave the bikes around. After being ordered, the food takes less than five minutes to get to the table, and is always very fresh and tasty in doses much more acceptable than in the United States. The fish and shrimp tacos are the specialty of Baja California, but we have been experimenting different types of roast beef, roast chicken and steak on the BBQ. Everything, everything is very good!

Someone told us that San Vicente was a little dangerous, but it was right there that Miguel stopped to talk to Pedro (I had gone shopping), and offered us lunch. Arriving in San Quintin was a challenge, given the level of traffic and some raids, but it was the only time (except for the first day) where we had problems, despite those who warned us over and over about the dangerous Mexican roads.

In San Quintin we were at Gabino and Lupita’s, who welcomed us like we were family. Even before we arrived we went to a health center where they told us that there was no vaccine for Hepatitis A, and that the General Hospital was twenty kms back. We decided to wait and see if our hosts could help us. With our usual luck, Lupita is a nurse in the emergency room of a hospital and she said that she was going to ask her colleagues whether it was possible to give us the vaccines. The next day she didn’t fail. It was not yet ten in the morning and she came home to tell us that the vaccines were ready for us. Her son, Luis, took us there on your bike and in no time, with two simple injections, we were immunized for life.

The members of this family, which also includes Estephania are some of the people with better heart that we came across on the trip . To every mention of our departure there came an ugly face, a “why not stay another day?”, they all liked to have company! The whole family changes rooms without any problem, so that cyclists can have the pleasure of resting in a bed and they are always ready to help us with our problems, and to talk a lot, too!

On the second day Flurina had a stomach infection and around eleven o’clock at night, it was a pandemonium when she passed out at the bathroom door, and vomited and something else, after resuscitated, with no time to get to the toilet. There Lupita entered into action. She cleaned her, she took care of her, she asked Luis to go to the pharmacy to get some drugs, which then she injected herself and treated her until she was able to go to sleep. On the next day she came to pick us up at eight o’clock, I went as a translator, and she took us to the hospital where she works, and where Flurina was very well attended . Without waiting she went directly to the room and there analyses were done, she was given serum, antibiotics and analgesics. After three hours the unfortunate patient had already recovered the colors and felt much better. It was eleven and Sam was driving Lupita’s car back home (she asked me to do it but I was afraid to hit with a car that is not mine), with the medication she needed directly delivered in the hospital. In the middle of her unfortunate, Flurina was very lucky and two days later we were ready to leave.

In our stay in San Quintin we celebrated the third anniversary of our first kiss, aka of our dating, with a beautiful cake that Estephania baked, and for the first time since our travel I was determined to make a dessert, a chocolate salami. We may say it was because of the Mexican ingredients, and not due to my poor cooking skills, the cake was not very special, but the octopus rice and the areias Pedro did composed the party! Still in chapter of food we could rely on the special hands of Luis, who like Pedro after being an engineer turned into a chef, and offered us unforgettable breakfasts of chilaquiles with frijoles (a kind of pasta with beans) and nopales ( cacti ) with eggs. Gabino also contributed to the party when he arrived and brought some cheese wine, mango with chili and other Mexican snacks .

These days were great with animation, but on the last night we went to a birthday party of Gabino’s and Lupita’s godson. It was with great tenderness that I remembered some of my childhood parties, some of them at my grandparents small village, including the christening of my brother. The food was all homemade, and the older ladies of the family, in an apron, prepared meals that the other guests enjoyed. In this case the party was in a tent next to the home, where we were greeted like family and where two older ladies,in an apron, prepared tortillas with delicious meat, where everyone laughed a lot while speaking in Spanish too fast for us to understand. The party included the typical Mexican piñata and even a small gift in the form of candy for the guests . Here things are still done in the old fashioned way, despite the theme of the party being the Minions from Despicable Me.

Unfortunately the day of departure arrived and the farewells are always difficult, especially when the impossibility of seeing someone is almost a certainty. To cheer us up, we know we will again see Gabino sometimes until we get to Loreto (eight hundred kilometers from here).

In front of us a new challenge, for which we are already mentally preparing: 700 kilometers of desert!

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