De passagem pelo Panamá | Passing through Panama

Saídos da Costa Rica de coração cheio e com uma enorme vontade de chegar à América do Sul, sabíamos já que o Panamá seria um país feito em pouco tempo e sem grandes desvios. Provavelmente haveria muito que explorar, entre montanhas, costa caribenha e selva, mas a nossa vontade era nula. Assim sendo, depois de uma noite passada num hotel barato junto à fronteira, seguimos até David onde chegámos às duas da tarde e pensámos ficar um dia para conhecer a cidade. Notícias de que o nosso barco para a Colômbia tinha sido cancelado fizeram-nos alterar os planos para sair no dia seguinte, o que verificámos ser uma decisão acertada depois da visita à cidade, de ruas pouco amigáveis a peões e pouco interesse histórico.

A estrada seria a pan-americana, já nossa conhecida pela condução selvagem de automobilistas, que ainda por cima estava em obras nos primeiros 200 Km de um total de 400 Km. Sem nenhum ponto de interesse pelo meio, não foi difícil a decisão de apanhar um autocarro directamente para a Cidade do Panamá, o que se veio a revelar tão cansativo como pedalar o caminho todo.

Primeiro há sempre o stress associado ao cumprimento de um horário (já não estamos habituados a isso), depois é preciso pôr as bicicletas e malas na bagageira, o que, regra geral, origina momentos de tensão e tentativas de extorquir dinheiro e finalmente há que descobrir um modo de viajar pelas vias rápidas que normalmente ligam os terminais ao centro das cidades. No nosso caso optámos por um táxi que tinha uma grelha em cima onde foram as bicicletas e os alforges na bagageira, o condutor, super simpático e ciclista de fim-de-semana, foi-nos dando dicas de como devíamos andar de bicicleta pela cidade e quais os bairros a evitar, tudo isto enquanto assistia a vídeos musicais duvidosos de esculturais mulheres fazendo twerk, na sua TV de bordo. Abismado com o espectáculo o Pedro perguntava-lhe como é que ele não se distraía na condução, enquanto o Felipe lhe respondia que não, que a música era “puro caribe”. Levou-me (Sara) a pensar se não andaremos a perder um mundo de informação útil por não andarmos mais vezes de táxi.

A Cidade do Panamá não é isenta de atractivos, desde o Casco Viejo, a zona histórica e charmosa da cidade, impecavelmente restaurada ou em processo de restauração, que é uma pequena península e de onde, quase sempre se podem avistar os magníficos arranha-céus que compõem o centro financeiro e comercial da cidade numa atraente mescla entre antigo e ultra-moderno. E se o primeiro convida à deambulação a pé enquanto nos maravilhamos com a beleza colonial dos edifícios, já no segundo os peões parecem mais um alvo a abater, tamanhas são as dificuldades de atravessar estradas sem passadeiras ou semáforos ou circular no calor abrasador da tarde em passeios cheios de obstáculos, num território em que os carros topo de gama são reis. Entre um e outro bairros duvidosos, grafitados, pobres, onde o guia nos diz para nem sequer entrarmos. As fronteiras são demasiado nítidas entre o hotel de luxo no edifício colonial acabado de restaurar e os prédios a cair de podre duas ruas mais atrás, onde indigentes vasculham os caixotes do lixo à procura de sobras.

Entre o luxo antigo e o luxo moderno fica também a avenida marginal, com o passeio e a ciclovia local onde ciclistas e peões podem andar à vontade, não atrapalhando assim o curso normal da vida citadina pejada de táxis para chegar a todo o lado. Nos dois dias que aí passámos, para além da deambulação pelo Casco Viejo, visitámos ainda o Museu do Canal do Panamá, que tinha uma exposição temporária que começava na Época dos Descobrimentos e não omitia o relevante papel dos portugueses, comemos ceviche e cocktail de marisco no Mercado de Mariscos, conversámos animadamente com o português Luís Alexandre que estava no nosso hostel e vimos gorada a nossa tentativa de atravessar o Canal do Panamá de barco, fazendo de tripulação para um amigo francês que conhecemos na Costa Rica, por incompatibilidade de datas.

Tivemos então que enfrentar os nossos medos e aventurarmo-nos a passar de bicicleta pelos bairros duvidosos que tantas suspeitas nos haviam criado, já que não havia outra maneira de sair da cidade. Como estratégia resolvemos sair às seis da manhã e arranjámos na internet um percurso que nos levaria pela estrada adjacente ao Canal. Inesperadamente às seis da manhã já uma chusma de gente andava pela rua, provavelmente trabalhadores e estudantes, o que aumentou o nosso nervosismo e ao mesmo tempo o percurso parecia ter sido feito pelo passeio já que não respeitava os sentidos do trânsito. Mas bastou meia hora e já íamos pela estrada que saía da cidade, enquanto espreitávamos um gigante cargueiro a passar à justinha nessa maravilha do engenho humano que é o Canal do Panamá. Infelizmente chegámos demasiado cedo ao Centro de Visita e a distância de 107 Km que tínhamos previsto para o dia impediu-nos de esperar a hora e meia necessária, pelo que não chegámos a ver as eclusas. Depois de sairmos da estrada, que entretanto tinha virado bosque, o resto do caminho foi bastante deprimente, com povoações feias, casas degradadas, gente de cara fechada e uma tempestade que fez a temperatura descer 20º graus (de 44º a 24º).

Num dia passámos do Atlântico ao Pacífico, e da capital a uma das mais importantes cidades dos tempos de tráfego de ouro e escravos entre Espanha e as colónias, a cidade de Portobelo. Apesar das suas fortificações datadas dos séculos XII e XVIII, serem Património da Humanidade, o seu estado de degradação e abandono é lastimável. Ao lado de fortes e canhões apodrecidos ou enterrados debaixo de vegetação densa, que apenas deixa adivinhar os contornos do que em tempos era uma das mais avançadas formas de defesa da cidade, crescem casas e ruas desgovernadas numa total falta de planeamento e respeito pela importância histórica do local.

Foi aqui que conhecemos o Rui Diniz, mais um português, que está à frente de um projecto cultural destinado às crianças e jovens da localidade através de uma escola de música, sobre a qual podem saber mais aqui. Portobelo foi o último sítio que visitámos por terra no Panamá, e o porto onde embarcámos para uma das melhores partes da nossa viagem.

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Coming out of Costa Rica with a filled heart and a strong desire to get to South America, we knew that Panama would be a country travelled in a short time and without major detours. Probably there would be much to explore, like mountains, the Caribbean coast and the jungle, but our will to do it was zero. Thus, after a night spent in a cheap hotel near the border, we continued towards David where we arrived at two with the thought of staying one day to see the city. News that our boat to Colombia had been canceled made us change plans to leave the next day, which we found to be a wise decision after the visit to the city, its unfriendly pedestrian streets and little historical interest. The road would be the Pan American already known for the wild driving of cars, and that moreover was in construction for the first 200 km of a total of 400 Km. Without any point of interest on the way, the decision to catch a bus directly to Panama City was not hard, but it proved to be so tiring as to cycle the entire way.

First there is always the stress associated with having a schedule (we’re not accustomed to it anymore), then we need to put the bikes and bags in the luggage compartment, which generally originates moments of tension and attempts to extort money from us and finally we needed to find a way to travel the speedy highways that normally connect the terminals to the center of cities. In our case we opted for a taxi that had a rack on top where we put the bikes and the panniers on the luggage compartment, the driver, a super nice weekend cyclist, was giving us tips on how we should ride a bike around town and which neighborhoods to avoid, all while watching doubtful music videos with sculptural women doing twerk on his TV on board. Astonished at the spectacle Pedro asked him how he did not get distracted while driving, and Felipe answered him that he didn’t and that the music was “puro Caribbe”. It took me (Sara) to think that by not taking more taxis while in towns we are loosing a useful world of information.

Panama City is not exempt of attractions, from the Casco Viejo, the historic and charming old town, immaculately restored or being restored, which is a small peninsula where, it is almost possible everywhere to catch a sight of the magnificent skyscrapers that comprise the financial and commercial center of the city in an attractive blend of old and ultra-modern. And if the first invites to wander around on foot while marveling at the beauty of colonial buildings, on the second pedestrians seem more like a target, such are the huge difficulties to cross roads without crosswalks or traffic lights or move on the scorching heat of the afternoon with sidewalks filled with obstacles in a territory where the top range cars are kings. In between doubtful, graffitied, poor neighborhoods, where the guide tells us not to even enter. The borders are too sharp between the luxury hotel in a just restored colonial building to the falling rotten buildings two streets behind, where indigent scour the bins looking for scraps. Among the ancient and the modern luxuries there is also a promenade, with a big sidewalk and a bike path where cyclists and pedestrians can walk freely, not disturbing the normal course of city life littered with taxis to reach everywhere. In the two days we spent there, appart from deambulations on Casco Viejo, we also visited the Museum of the Panama Canal, which had a temporary exhibition that began with Age of Discoveries and din’t omitted the important role of the Portuguese, we ate ceviche and seafood cocktails at the Mercado de Mariscos, chatted animatedly with Luís Alexandre a portuguese who was staying at our hostel and saw foiled our attempt to cross the Panama Canal by boat, making the crew to a French friend we met in Costa Rica, due to incompatibility of dates.

We then had to face our fears and venture out on the bike passing by bad neighborhoods that had created much suspicion, since there was no other way out of town. As a strategy we decided to leave at six in the morning and got a route online that would take us down the road adjacent to the canal. Unexpectedly at six am there was already a mob of people walking down the street, probably workers and students, which increased our nervousness while the route seemed to have been done to cycle on the sidewalk since it was not complying with the directions of the traffic. But all it took was half an hour and we were already on the road coming out of the city while we took a look at a giant freighter passing really close to the marvel of human engineering that is the Panama Canal. Unfortunately we arrived too early at the Visitor Center and the distance of 107 km we had planned for the day made us decide not to wait for the required hour and a half, so we didn’t get to see the locks. After leaving the road, which had meanwhile turned into woods, the rest of the way was quite depressing, with ugly towns, dilapidated houses, people frowning and a storm which made the temperature drop 20º degrees (44 º to 24 º).

In one day we went from the Atlantic to the Pacific Coast, and from the capital to one of the most important cities of the age of gold and slave trade between Spain and the colonies, the city of Portobelo. Despite its fortifications dating from the seventeenfth and eighteenth centuries being recognized as World Heritage, its state of degradation and neglect is unfortunate. Beside rotting fortifications and canons (when they are not buried under dense vegetation where we can only guess the contours of what was once one of the most advanced forms of defense of the city), grow houses and streets ungoverned in a total lack of planning or respect for the historical importance of the site.

It was here that we met Rui Diniz, another Portuguese, who is managing a cultural project aimed at children and young people of the locality through a music school, on which you can learn more here. Portobelo was the last place we visited in Panama by land, and the port where we embarked for one of the best parts of our trip.

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