O bom, o mau e o ladrão – uma semana no Belize II | The good, the bad and the thief – a week in Belize II

É fantástico estar nas Caraíbas, mas é caro e quase tudo o que é bom de fazer custa dinheiro, assim sendo resolvemos regressar ao continente. Depois do despertador a tocar às cinco e vinte e de uma gincana de barco, táxi e autocarro, regressámos a Orange Walk onde as miúdas estavam tal e qual as deixámos, embora um pouco mais empoeiradas. Entre arrumar tudo, abastecermo-nos de pão e água e despedirmo-nos dos bombeiros que nos presentearam com uma garrafa de excelente rum do Belize, eram já onze e meia, hora a que começa o pico do calor. A estrada era um pouco mas o vento pelas costas ia ajudando ao ânimo de circular a uma velocidade superior ao habitual. De repente a fome já apertava e uma paragem de autocarro revelava-se o sítio ideal para um merecido descanso.

Ao longe começamos a avistar dois ciclistas, que carregavam alforges como nós. Acenámos, e ficámos a conhecer o Markus e a Anja da Alemanha, que tinham entrado naquele dia no Belize e que se dirigiam a Crooked Tree, uma área protegida, situada no meio de um lago e o sítio ideal para avistar passarada diversificada. Pensámos que não seria má ideia e resolvemos dar o dia por terminado aos quarenta quilómetros e ficar também em Crooked Tree. A estrada de seis quilómetros de acesso era de terra batida e a certa altura também de gravilha a dar para o calhau, mas valeu a pena, além da beleza da paisagem a reserva era também uma pequena aldeia com simpáticas casinhas de madeira rodeadas de quintais relvados e onde toda a gente nos dizia boa tarde. O nosso azar foi mesmo com o sítio onde ficámos. Seguindo as placas de um hotel perguntámos se era possível acampar aí, a dona, muito simpaticamente disse que sim e até nos fez um desconto. À nossa disposição tínhamos a casa-de-banho de um dos quartos, uma mesa e duas cadeiras e vista sobre a lagoa. Montámos a tenda, instalámo-nos e fomos dar uma volta a tentar ver os pássaros ao pôr-do-sol e falar com os alemães que tinham acampado do outro lado da aldeia.

Quando regressámos o Pedro foi buscar o seu mp3 que tinha ficado a carregar no painel solar, mas que entretanto tinha desaparecido. Relatado o desaparecimento à dona do hotel e aos seus três filhos, estes disseram que não tinham visto ninguém passar e que os miúdos tinham estado a brincar do outro lado. O caso era estranho porque o sítio era um pouco isolado e o painel tinha ficado mais ou menos fora de vista de quem por ali passasse casualmente. O mp3 não podia ter caído porque estava bem agarrado ao painel, e não fazia sentido o furto já que o painel era mais valioso que o aparelho musical. Passados uns vinte minutos o filho mais velho saiu de casa e perguntou se tínhamos ainda a tampa do leitor, que o Pedro tinha guardado no bolso antes de sairmos e que tinha mostrado para dar uma ideia da cor do mp3. Segundo ele podia usar a tampa no seu leitor que ouvia enquanto ia para a escola. Claro que ficámos desconfiados, mas sem provas não há nada a fazer. No dia seguinte dissemos à mãe, ela pediu que o miúdo mostrasse o seu leitor, que era parecido a um ipod pequenino, e depois ele ainda trouxe mais umas pens e disse que a tampa era para estas.

Desgostosos pelo que tinha sucedido seguimos caminho manhã cedo, dispostos a fazer 110 Km até chegar à capital do país, Belmopan, onde sabíamos que havia um quartel de bombeiros onde podíamos pedir guarida. O dia estava a correr bem, fizemos um pequeno desvio para uma aldeiazinha que fazia lembrar Manheim na Pensilvânia, e onde comemos hamburguers ao almoço, tal como se estivéssemos nos Estados Unidos. Aqui no Belize há muitos menonitas, que já tínhamos conhecido na Pensilvânia, e a paisagem e as casas de madeira com jardins trazem-nos à memória momentos iniciais da nossa viagem. A diferença é que estamos nos trópicos e que aqui há mesmo muita gente, de todas as idades, a deslocar-se de bicicleta. Passado algum tempo cruzámo-nos com outro casal de ciclistas, originários do Canadá, que começaram na Costa Rica há quatro meses e que progridem de forma lenta, fazendo surf aqui e ali.

Aos 70 Km eu (Sara) comecei a pensar que talvez pudéssemos dar o dia por terminado e começar a procurar sítio onde ficar. Parados a olhar para o mapa fomos abordados por um senhor que conduzia um camião das obras e que “ofereceu” o seu terreno para acamparmos, por uns meros 20 dólares belizeanos (€ 7,20), sem uso da casa-de-banho ou do chuveiro, segundo ele a água era grátis no Belize, podíamos ir buscá-la e por uma questão de segurança devíamos mesmo ficar na sua propriedade. Ora aqui estava o alento que eu necessitava para os 40 Km que faltavam!

Íamos com vento pelas costas e já em velocidade cruzeiro, quando a parede lateral do pneu traseiro do Pedro finalmente se rasgou, como já vinha dando sinal há algum tempo. Uma providencial paragem de autocarro forneceu a desejada sombra para trocar de pneu (temos dois pneus suplentes dobráveis) e passada meia hora já tentávamos apanhar velocidade para chegar antes do pôr-do-sol, o que conseguimos, embora muito cansados. A recepção no quartel dos bombeiros não foi a mais simpática e aberta, mas tinha espaço para montarmos a tenda, água e sanita e estávamos em segurança, ou seja o essencial.

Mais simpático foi o senhor do restaurante/barraquinha nepalês adjacente, que se veio apresentar e onde acabámos por jantar, satisfazendo o apetite de conhecimento do seu proprietário por Portugal e pela Europa.

O dia seguinte foi feito num percurso curto e rápido até San Ignacio – teria sido mais rápido se o Pedro não tivesse posto dois cocos cheios de água na minha bicicleta – onde, ainda antes de procurarmos um sítio para ficar, comprámos um mp3 novo numa loja de penhores. É por aqui que estamos agora (no momento em que escrevo) a aguardar que passe o fim-de-semana para atravessarmos a fronteira até à Guatemala, que desde a entrada no Belize, domingos são dias santos e não se deve arreliar os oficiais fronteiriços, não sejam estes católicos fervorosos.

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It’s fantastic to be in the Caribbean, but it is expensive and almost everything that is good to do costs money, therefore we decided to return to the mainland. The alarm clock ringed at five twenty, and after a boat, a taxi and a bus, we were back to Orange Walk where the girls were just like we left them, although a little more dusty. Between packing everything, buying us bread and water and saying goodbye to the firefighters who presented us with a bottle of excellent Belizean rum, it was already eleven thrirty, precisely at the peak of the heat. The road was a bit dull but the wind in our back helped us move to a higher speed than usual. Suddenly we got hungry and a bus stop turned out to be the ideal site for a deserved rest.

In the distance we started spotting two cyclists, carrying panniers like us. We waved, and we got to know Markus and Anja from Germany who had entered Belize that day and were going to Crooked Tree, a protected area located in the middle of a lake and the ideal place for spotting different kinds of birds. We thought it would not be a bad idea and decided to finish the day at forty kilometers and also stay in Crooked Tree. The six kilometers dirt and gravel road turned into pebble, but it was worth it, apart from the beauty of the landscape, the reserve was also a nice little village with small wooden houses surrounded by lawns and backyards where everyone complimented us with a good evening. We even got lucky with the place we got for the night. Following the signs of a hotel we asked if it was possible to camp there, and the owner, very kindly said yes and even made us a discount. At our disposal we had the en- suite bathroom of a room, a table and two chairs and views over the lagoon. We set up the tent, we settled ourselves and went for a walk to try to see the birds at sunset and talk to the Germans who had camped on the other side of the village.

When we returned Pedro looked for his mp3 which had been charging in the solar panel, but which had meanwhile disappeared. We reported the disappearance to the owner of the hotel and her three children, but they said they had not seen anyone pass and the kids had been playing on the other side. The case was strange because the site was a bit isolated and the panel had been more or less out of sight for those passing by casually. The mp3 could not have fallen because he was well hooked to the panel, and the theft made no sense since the panel was more valuable than the electronic. After twenty minutes the eldest son left home and asked if we still had the lid of the reader, that Pedro had kept in his pocket before we left and that he had previously shown to give an idea of the color of the mp3. He said he could use the lid on his mp3 reader that he used on his way to school. Of course we were suspicious , but without evidence there is nothing to do. The next day we told the mother what had happened and she asked the kid to show his reader that was similar to a tiny ipod, and then he even brought a few more usb pens and said the lid was for those.

Unhappy with what had happened with continued our way early morning, ready to do 110 kilometers to reach the capital, Belmopan, where we knew there was a fire station where we could ask to stay. The day was going well, we made a small detour for a little village reminiscent of Manheim, Pennsylvania, and where we ate hamburgers for lunch, as if we were back in the United States. Here in Belize there are lots of Mennonites, that we had already knew from Pennsylvania, and the landscape and the wooden houses with gardens bring to our minds early moments of our trip. The difference is that we are in the tropics and there are many people right here, of all ages, that use the bike to move from place to place. After a while we came across another couple of cyclists, from in Canada, which began in Costa Rica four months ago and are progressing slowly, stopping for some surf here and there.

After 70 Km I (Sara) started thinking that maybe we could call it a day and start looking for somewhere to stay. As we stopped to look at the map we were approached by a man who drove a construction truck and that “offered” his land for us to camp , for a mere $ 20 belizean dolars ( € 7.20), without use of the toilet or shower, he said the water was free in Belize, we could go get it and for the sake of our safety we should stay in his property. Now here was the encouragement I needed for the 40 Km missing!

We had the wind on our backs and were going at a cruising speed, when the sidewall of Pedro’s rear tirefinally tore, as it was already showing signs of it for a while. A providential bus stop provided the desired shade to change the tire (we have two spare folding tires) and half an hour later we were trying to get some speed to reach Belmopan before sunset, which we did, though very tired. The reception at the fire station was not the most friendly and open, but we had space to set up the tent, water and toilet and we were safe, the basics.

More sympathetic was the owner of the adjacent Nepalese restaurant/food cart, who came to present himself and where we ended up dining, satisfying the appetite of knowledge of the owner about Portugal and Europe.

The following day we made a short and quick ride to San Ignacio – would have been faster if Pedro had not put two coconuts filled with water on my bike – where even before we seek a place to stay, we bought a new mp3 in a pawn store. This is where we are now (at time of writing) waiting to pass the weekend to cross the border into Guatemala. Since the entry in Belize, Sundays are holy days and you should not tease border official, just in case they are fervent Catholics.

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