Seis dias de Inferno, ou quase, entre Puebla e Oaxaca – parte II | Six days of almost hell between Puebla and Oaxaca – Part II

Até Huajuapan de Léon

Três horas depois de adormecermos o despertador tocou, fazendo snooze fomos rolando na cama, “só mais um bocadinho, só mais um bocadinho”, e só conseguimos sair da cidade eram já quase nove e meia. As primeiras horas foram de grande frustração. O calor apertava, e eu sonolenta e mal disposta, quase não passava dos 5 km/hora. Já no dia anterior tinha trocado o capacete pelo chapéu, mas desta vez tive mesmo que me socorrer do pequeno frasco de eletrólitos líquidos, para misturar na água, trazido dos Estados Unidos e guardado para ocasiões drásticas. As temperaturas mantinham-se elevadas e a sensação era a de estar a pedalar numa sauna cheia de gigantes cactos. O almoço foi feito num simpático desvio ao mercado da pequena vila de Peltacingo, onde tentámos recuperar forças. Às duas tarde voltámos à estrada, e entre múltiplas paragens para descansar e comer acabámos numa loja que vendia óleo para carros e pequenas mercearias. No meio havia duas cadeiras, eu ocupei uma, apenas perguntando depois se podia estar ali sentada e dormitei enquanto bebia um horroroso sumo de frutas tropicais, que esperava me trouxesse um pouco mais de energia.

Uma vez mais voltámos à estrada, passando por pequenas aldeias que começavam e terminavam com enormes valas. Descíamos a grande velocidade para apanhar balanço, que tentávamos maximizar na subida, mas sempre de forma insuficiente, já que a acabávamos a arrastar-nos. A pergunta era sempre a mesma porquê?, porque é que não constroem pontes ou viadutos, em vez de fazerem a estrada na orografia natural do terreno. Como tinha estado a dormitar, a minha sensação foi de delírio, de eu estar a viver aquele momento fora de mim mesma, como se o meu corpo continuasse, mas eu estivesse a observar-me de fora.

Felizmente as temperaturas começaram a baixar e a subida tornou-se mais gradual. Com outra disposição seguimos até à fronteira do estado de Oaxaca, onde a estrada, que até ali tinha o alcatrão perfeitamente colocado passou a provocar-nos uma intensa trepidação nas bicicletas. Nisto o Pedro ouve um som, pede-me para ver o pneu traseiro. Eu digo que está tudo bem mas não era verdade. Passados cinco minutos o pneu continua a soltar ar quando o Pedro diz que “ou é um furo ou passei por uma cascavel”.

Estávamos quase a conseguir chegar de dia, mas trocar o pneu ainda levou os seus quarenta minutos. Fui à procura de um sítio para acampar ali perto, mas o lixo no chão deixava vestígios de ser um local muito utilizado, e o campo seco de espigas de milho que restolhavam ao vento prometia-nos uma noite em sobressalto. Coletes refletores vestidos, luzes das bicicletas acesas, usámos o tempo de lusco-fusco para terminar a subida. A certa altura só ouvi, “Sara, Sara!”, era o Pedro, que com ar assustado tinha caído da bicicleta enquanto tentava mudar uma mudança na subida e ficou sem espaço entre mim e o camião que passava. Os ânimos estavam ao rubro!

Faltava apenas a descida, já feita na maior das escuridões. A estrada continuava em más condições, ainda para mais cheia de enormes buracos. O caminho era de apenas uma faixa para cada lado em vertiginosas curvas e contracurvas, sem qualquer tipo de iluminação. Aparentemente os condutores mexicanos são bem mais cuidadosos no escuro do que durante o dia e por isso não arriscavam nas ultrapassagens, mas do medo de levar com um carro em cima não nos livrámos. Para ajudar à festa fomos perseguidos por duas diferentes matilhas de cães, que ladravam e rugiam sem que eu tivesse noção da distância a que se encontravam. O meu coração batia depressa enquanto contrariava o meu instinto de fugir para a faixa contrária e procurava equilibrar a bicicleta entre racionalidade e rápidos movimentos de fuga, e ainda gritos de “a casa!”.

Foi pois com grande alegria que vimos luzes, primeiro ainda ao longe, e depois já indicativas de que tínhamos chegado ao princípio da cidade. Por sorte na bifurcação havia um polícia que nos indicou o quartel dos bombeiros, já ali ao virar da esquina. Ainda antes de entrarmos disse ao Pedro, “se nos dizem que não podemos ficar aqui desato a chorar”, resposta do outro lado “e eu desato ao estalo”.

Felizmente não foi preciso recorrer a tais métodos, muito simpaticamente disseram-nos que já lá estavam outros três ciclistas, e muito prontamente arranjaram espaço e dois colchões para nós.

 

Até Tamazulapan

De manhã enquanto revia o stock de comida encontrei uma cenoura completamente cozida, dentro do saco de plástico onde se encontrava, mostrei-a ao Pedro com um ar triste, que me respondeu: “não te preocupes, ontem foi um dia difícil para todos!”. Ao pequeno-almoço conversámos com o Mike, o Abraham e o Levy, ciclistas que tinham iniciado a sua viagem no Paraguai e que nos disseram que daí para a frente o calor não iria ser tão mau! Com vãs esperanças, e para não perder mais tempo, resolvemos não ir ao supermercado, mas comprar apenas fruta e bolachas, e rapidamente iniciar a jornada. Já eram nove e meia quando nos fizemos à estrada e o calor castigador desde logo nos desfez os planos de um dia mais fresco. A meta para o dia seriam oitenta e quatro quilómetros, que logo decidimos dividir em dois dias, face aos obstáculos dos dias anteriores. E ainda bem que assim foi. Depois dos primeiros dezassete quilómetros de grandes subidas inclinadas, de curvas e contracurvas bem apertadas, e de algumas descidas também, chegámos ao cimo de uma curva e avistámos a única aldeia que aparecia no mapa, a qual tínhamos acabo de passar, e que não parecia ter qualquer tipo de estabelecimento que nos satisfizesse o apetite. Por esta altura ainda não era meio-dia e já eu estava esfomeada, pronta a comer este mundo e o outro, quando o Pedro estuda o GPS e verifica que a próxima aldeia fica a vinte e poucos quilómetros. Que fazer senão continuar? Felizmente estávamos bem abastecidos de água, de fruta e outros snacks, que fomos comendo nas milhentas paragens a que o caminho e o calor obrigavam.

A meio da pior subida encontrámos a Megan e a Kay, duas ciclistas de São Fancisco que vão até à Guatemala e que dormiam uma sesta retemperadora. Sentámo-nos a conversar e a descansar, mas em breve seguimos caminho, alcançando o cimo do passe. A paisagem já tinha começado a mudar e a descida trouxe-nos terrenos verdes, riozinhos, uma pequena cascata, campos de cultivo. Assumimos, quando chegámos ao fim, que a próxima vila já estaria perto, mas estávamos enganados, ainda era preciso subir mais. O verde da paisagem, no entanto não abrandou o calor, a certa altura parámos, uma vez mais, para comer, e o termómetro marcava 51º graus.

Eram já quatro e meia da tarde quando, depois de 42 km de grande esforço, entrámos na Vila de Tamazulapan del Progresso e nos sentámos a almoçar. O nosso destino para o dia não era aquele, mas rapidamente se tornou. Havia possibilidade de acampar junto ao rio, mas estávamos a precisar de conforto. Afinal de contas, ainda faltavam mais dois dias para chegar a Oaxaca e para onde quer que nos virássemos só se viam montanhas e mais montanhas a toda a volta. 

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Until Huajuapan de León

Three hours after falling asleep the alarm rang, and we rolled in bed snoozing for a long time, “just a little longer, just a little longer”, and we only got out of the city it was almost nine-thirty. The first few hours were of great frustration. The heat was already exhausting, and I (Sara) sleepy and in a bad mood, barely passed the 5 km per hour. In the day before I had already exchanged the helmet for the hat, but this time I had to use the small bottle of liquid electrolytes, to mix in water, that we had brought from the United States and saved for drastic occasions. The temperatures remained high and the feeling was to be pedaling in a sauna full of giant cacti. Lunch was done in a nice deviation to the small village of Peltacingo, where we tried to recover our forces eating in the market. At two o’clock we returned to the road, and between multiple stops to rest and eat we stopped in a shop that sold oil for cars and small groceries. In the middle of the store there were two chairs, I occupied one, and only after did I ask if I could be sitting there, and dozed while drinking a horrific tropical fruit juice, which I hoped would bring me a little more energy.

Once again we returned to the road through small villages that began and ended with huge ditches. We descended at great speed to take advantage of the momentum on the climb, but always insufficiently, since we ended up dragging ourselves up. The question was always why?, why not build bridges or viaducts, instead of making the road in the natural topography of the land. As I had been dozing, my feeling was delirious, as if I was living that moment outside of myself, as if my body kept going and I was watching from outside.

Fortunately the temperatures began to fall and the clim became more gradual. With a different mood we continued until the borders of the state of Oaxaca, where the road, which until then had the tar perfectly placed, cause intense trepidation on our bikes. Herein Pedro hears a sound and asks me to see the rear tire. I say it’s okay but it was not true. Five minutes later the tire continues to lick air when Pedro says “is either a hole or a rattlesnake”.

We were almost arriving by day but changing the tire took some forty minutes. In the meantime I started looking for a place to camp nearby, but the trash left on the ground proved it to be a widely used site, and dry field corn cobs that moved on the wind promised us an alarming night. We put on our reflective vests, lit the lights on the bicycles, and used the time to finish the climb on the dusky. At one point I just heard, “Sara, Sara!” it was Pedro calling with a frightened look since he had fell from his bike while he was changing a gear in a climb and ran out of space between me and the passing truck. Tempers were running high!

Now we only needed to do the descent, totally made in the darknesses. The road remained in poor condition, even more because it was filled with huge holes. The road was only one lane each way in dizzying twists and turns without any lighting. Apparently the Mexican drivers are more careful in the dark than during the day and so did not risk overtaking in the curves, but the fear of having a car hitting us remained. To help the party we were chased by two different packs of dogs that barked and roared without me having notion of distance between us. My heart was beating fast as it conflicted with my instinct to flee to the opposite lane and trying to balance the bike between rationality and rapid escape movements and even cries of “go home”.

It was therefore with great joy that we saw some lights, first still from afar, and then already indicating that entered the perimeter of the city. Luckily there was a police in the bifurcation that indicated the firefighters house, just around the corner. Even before we entered I told Pedro, “If they tell us we cannot stay here I will burst into tears” response from the other side “and I will start beating someone”.

Fortunately it was not necessary to resort to such methods, very kindly they told us that there were already three other cyclists there, and very promptly arranged space and two mattresses for us.

Until Tamazulapan

In the morning while I was reviewing the stock of food I found a fully cooked carrot, inside the plastic bag where it was, I sadly showed it to Pedro that replied “don’t worry, yesterday was a tough day for everyone!”. At breakfast we chatted with Mike, Abraham and Levy, cyclists who had started their trip in Paraguay and who told us that from then on the heat would not be so bad! With vain hopes, and not to lose any more time, we decided not to go to the grocery store, but buying fruit and biscuits, and quickly begin the day journey. It was already half past nine when we hit the road and punishing heat immediately undid the plans for a cooler day. The goal for the day would be eighty-four kilometers, that we soon decided to split in two days, due to the obstacles of the previous days.

After the first seventeen kilometers of large sloping hills, tight curves and reverse curves, and also some descents, we reached the top of a curve and we saw the only village that appeared on the map, which we had just passed, and that it did not seem to have any type of establishment that would satisfy our appetite. By this time it was not yet noon and I was already hungry, ready to eat everything that come my way, when Pedro studies the GPS and verifies that the next village is only in twenty something kilometers. What to do but keep going? Fortunately we were well supplied with water, fruit and other snacks, that we devoured in the forced stops due to the path and the heat.

On the middle of the worst uphill we met Megan and Kay, two cyclists San Francisco going to Guatemala and who were sleeping a reinvigorating nap. We sat down to talk and relax, but soon continued, reaching the summit of the pass . The landscape start changing and the descent brought us green lands, rivers, a small waterfall, crop fields . We assumed, when we reached the end, the next village was already close, but we were wrong , it was still necessary to climb more. The green landscape, however has not slowed down the heat at a certain point we stopped once more, to eat, and the thermometer marked 51 degrees.

It was four-thirty in the afternoon when, after 42 km of great efforts, we entered the Villa de Tamazulapan del Progress and we sat down to have lunch. Our destination for the day was not that, but it quickly became it. It was possible to camp by the river, but we were in need of comfort. After all, there were still two more days to get to Oaxaca and wherever we turned on we only saw mountains and more mountains all around.

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