Frankie, o deserto e um oásis | Frankie, the desert and an oasis

Depois dos dias em Guerrero Negro continuámos a nossa travessia do deserto. O primeiro dia adivinhava-se fácil, já que o caminho era plano, mas o vento dificultou-nos a tarefa e os 75 Km foram feitos a muito custo. Pelo meio apenas areia, nada de cactos e alguns sítios com escassas casas. A monotonia feita caminho.

Já no dia seguinte, pouco depois de termos deixado Vizcaino, aguardava-nos uma das maiores surpresas da viagem, o Frankie. Tínhamos começado a viagem há uns vinte minutos quando do outro lado da estrada vimos, parado numa pequena mercearia à conversa com o dono, um ciclista como nós, que identificámos pelos alforges na bicicleta.

O Frankie tinha passado a última hora e meia a conversar e a beber mate, num recipiente típico da sua terra natal, a Argentina. Quando nos conhecemos brindou-nos com um grande sorriso e quando lhe dissemos que talvez tivéssemos um sítio onde ficar em San Ignacio, disse-nos que vinha connosco e assim foi. Pelo caminho fomos descobrindo a sua história e o modo invulgar como viaja.

Aproveitando a ida a um casamento de um primo em Los Angeles, o Frankie decidiu que não ia regressar a casa tão cedo e por ali ficou cerca de dois meses a trabalhar. Entretanto cruzou-se com uma rapariga que viajava de bicicleta e pensou que seria uma boa ideia fazer o mesmo. O tio ofereceu-lhe uma bicicleta de montanha já com dez anos, e ele arranjou dois alforges, pegou no seu copo de mate e decidiu seguir rumo a Norte, ao Montana. Sem tenda, saco-cama, fogão, capacete ou casacos de gore tex, o Frankie usa três ponchos para dormir, e um plástico para o caso de chover, tem uma grelha para cozinhar, recorrendo sempre a uma fogueira, e da sua indumentária fazem parte um chapéu de sol em palha e um casaco em pele que serve para o frio e para a chuva. Naquele dia tinha comprado uma carne barata, que não tinha como refrigerar, e por isso à hora de almoço parámos no meio do deserto para um churrasco de rim e parte de barriga de vaca, numa pausa de duas horas e meia. Como eu não me sentia muito bem disposta ele ofereceu-me o seu poncho para eu me deitar a dormir uma sesta. O que o Frankie não tem em eficiência e equipamento compensa em simpatia e hospitalidade. Assim que avistou pitayas, um fruto vermelho que cresce nos cactos e que tem uma textura, cor e sabor semelhante a uma melancia, logo foi buscar duas ou três que partilhou connosco assim que terminou de as abrir.

Sempre encantados com a paisagem, que tinha voltado a ser de vegetação, pedras e de vistas largas, fomos seguindo caminho até ao nosso destino para aquele dia, o oásis de San Ignacio. Sim, no meio dos cactos e da aridez, chegámos a um vale luxuriante, cheio de palmeiras carregadas de tâmaras, um lago e riachos, a primeira pequena cidade com ruas alcatroadas e uma igreja datada de 1786, construída com pedras de lava do vulcão Três Virgens. Uma verdadeira surpresa e um chamariz para mais um dia de descanso, que acabou por transformar-se em dois.

Como nos sentíamos adoentados no dia em que chegámos resolvemos ficar num hotel, mas no dia seguinte fomos à descoberta de novo sítio para nos acomodarmos e voltámos a encontrar o Frankie, que no dia anterior tinha ido à sua vida, fazer amigos e beber tequilla até à uma da manhã. Junto ao nosso amigo estava o Manuel, o dono da Ecobaja Tours, e de um magnífico parque de campismo à beira de um lago, onde nos instalámos com grande alegria e acesso ilimitado a todas as tâmaras que conseguíssemos comer.

Perto de San Ignacio está a Serra de San Francisco, cheia de grutas com artes rupestres feitas há cerca de oito mil anos atrás e que serão das mais antigas de todo o continente. O Manuel já ia levar dois casais franceses numa excursão e disse-nos que quantos mais fôssemos mais barato ficaria a cada um, por isso decidimos juntarmos. Nós e os australianos Kate e Dan, também ciclistas que tínhamos conhecido em Guerrero Negro. Na noite anterior à excursão fizemos um grande churrasco no acampamento, e o Frankie lembrou-se que bom bom seria comprar um pequeno cabrito e assá-lo na brasa.

Fomos assim incumbidos, em conjunto com o Manuel, da missão de arranjar um “chivito” a caminho da Serra de São Francisco. E foi assim que, para além de admirarmos as espectaculares paisagens dos canyons da serra, de pararmos para comer pitayas, de ver pedras com desenhos de sóis e flores, e de visitar as grutas propriamente ditas, parámos em todos os ranchos a caminho de São Francisco na busca do jantar. Pelo caminho aprendemos que as cabras são mesmo dos animais mais fáceis de criar, os rancheiros soltam-nas de manhã e elas vão pelos montes à procura dos seus próprios alimentos, regressando à noite, sozinhas ou com a ajuda de cães pastores. Foi o que aconteceu naquele dia, quando chegámos já as cabras andavam todas à solta pelos montes. Mas isso não nos impediu de nos regalarmos com um belo queijo que comprámos num dos ranchos que visitámos, ou de brincar com as cabrinhas bebés que ainda não estavam preparadas para deixar a quinta.

Os dias seguintes foram de nova viagem pelo deserto, incluindo a espectacular vista do vulcão das Três Virgens, a vertiginosa descida da Costa do Inferno, uma passagem nada simpática pela cidade mineira de Santa Rosalia, uma assustadora viagem de bicicleta pela noite dentro, com direito a passagem junto a uma prisão, e uma perseguição canina na mais pura escuridão, até à chegada à encantadora cidade de Mulegé. O paraíso estava já ali ao lado…

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After the days in Guerrero Negro our journey through the desert continued. The first day, that we tought would be easy, since the road was flat, turned out hard due to the wind and the 75 km were made at great cost. The landscape just sand, no cacti and some places with few houses. The monotony made path.

The next day, shortly after leaving Vizcaino, awaited us one of the biggest surprises of the trip, Frankie. We started the day, and about twenty minutes after that we saw on the other side of the road, stopped at a small grocery store talking with the owner, a cyclist like us, that we have identified from the panniers on the bike.

Frankie had spent the last hour and a half chatting and drinking mate, in his homeland, Argentina, typical container. When we met he presented us with a big smile and when we told him that we might have a place to stay in San Ignacio, he told us that he would came with us and so it was. Along the way we discovered its history and unusual way to travel.

Taking advantage of a wedding of a cousin in Los Angeles, Frankie decided he was not going back home soon and there he stayed, working for about two months. However he saw and talked to a girl who was on a bike and thought it would be a good idea to do the same. His uncle offered him a ten year mountain bike, and he arranged two panniers, took his cup of mate and decided to move towards the north to Montana. With no tent, sleeping bag, stove, helmet or a gore tex jacket, Frankie uses three ponchos to sleep, and a plastic in case it rains, he has a grill for cooking, always using a campfire, and makes part of his costume a sun hat straw and a leather jacket for cold and rain. On that day he had bought some cheap meat, and of course, he didn’t had a cooler, so at lunchtime we stopped in the middle of the desert for a BBQ of kidney and cow belly, a break of two and a half hours. As I did not feel very well, he offered his poncho for me to lie down and take a nap. What Frankie does not have in efficiency and equipment he compensates in friendliness and hospitality. Once he spotted some pitayas, a red fruit that grows on cacti and has a texture , color and flavor similar to a watermelon, he immediatly picked two or three that he shared with us as soon as he finished opening it.

Always delighted with the landscape, which had come to be vegetation, rocks and sweeping views, we followed the road to our destination for the day, the oasis of San Ignacio. Yes, among the cacti and drought, we reached a lush valley filled with loaded date palms, a lake and streams, the first small town with paved streets and a church dating from 1786, built with lava stone from the Three Virgin volcano. A real surprise and a decoy for another day of rest, which eventually turn into two.

Since we felt a little sick on the day we arrive, we decided to stay in a hotel, but the next day we went to look for a new place to stay and we found Frankie, who, on the day before, had gone to do his stuff, making friends and drinking tequilla up until one o’clock. Next to our friend was Manuel, the owner of Ecobaja Tours, and a magnificent campsite on the edge of a lake, where we installed ourselves with great joy and unlimited access to all the dates we could eat.

Near San Ignacio is the Sierra de San Francisco, full of caves with art paintings, made some eight thousand years ago, and that are supposed to be the most ancient in the whole continent. Manuel was going to take two French couples on a tour and told us that the more we were, the cheaper it would be to each, so we decided to join. We and Kate and Dan, some Australian cyclists that we had met in Guerrero Negro. The night before the tour we had a big barbecue at the campsite, and Frankie tought how nice it would be good to buy a small goat and roast it over coals.

So we had the task, together with Manuel, to find a “chivito” on the way to the Sierra de San Francisco. And so, in addition to admire the spectacular scenery of canyons on the mountain, we stopped to eat pitaya, seeing stones with drawings of suns and flowers, and visit the caves, we stopped at all the ranches on the way to San Francisco in search of dinner. Along the way we learn that goats are the easier animals to create, ranchers loosen them in the morning and they go through the hills in search of their own food, returning at night, alone or with the help of sheepdogs. It happened that day, when we got there they had alreadyloosed all the goats in the mountains. But that did not stop us from feasting with a wonderful cheese we bought in one of the ranches we visited, or to play with the little baby goats who were not yet ready to leave the farm.

The following days were a new journey in the wilderness, including the spectacular view of the volcano of the Three Virgins, the precipitous decline in the Inferno Coast, a not so friendly passage through the mining town of Santa Rosalia, a scary trip through the night, passing next to a prison, and with a canine persecution in the darkness, until the arrival to the charming town of Mulegé.

The paradise was very near…

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2 pensamentos sobre “Frankie, o deserto e um oásis | Frankie, the desert and an oasis

  1. Não acredito que sou a primeira a comentar o nome da discoteca!! E pronto, já está comentado, que engraçado nome.
    E para não dizer só isto acrescento também que bonita fotografia com o céu cor de rosa.
    E para não comentar só as fotografias acrescento: BOM ANO!!!
    Bjs com saudades,
    Isabel

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