Os dias difíceis no Kansas | Hard days in Kansas

O Kansas seria, à partida, o terreno ideal para dois ciclistas de algibeira, plano, seco e quente. Os avisos começaram a chegar por via de outros ciclistas, que era muito ventoso, demasiado quente e com paisagens enfadonhas. Por outro lado teria também as pessoas mais simpáticas dos Estados Unidos. Com tudo isto presente, e depois de um dia de descanso começámos o dia por volta das 9h30 ( já um pouco tarde portanto), com um esperançoso vento pelas costas nos primeiros dez quilómetros. Bastou mudar a direcção para a diversão acabar e começar uma pequena luta entre nós e o vento que soprava de lado e um pouco de frente. A segunda dificuldade veio depois de entrarmos num supermercado para nos reabastecermos. Quando saímos era meio dia e a temperatura já subia aos quarenta graus. À nossa frente uma estrada sem qualquer tipo de sombras, num campo aberto dividido entre campos de feno, campos de milho e campos de trigo. A temperatura ia aumentando e o Sol estava brutal. A certa altura eu (Sara) senti-me como num jogo, a ver a minha barra de energia a diminuir e parei para comer qualquer coisa. Nesse momento o Pedro começou a sentir-se mal e fomos pedalando devagarinho até à próxima sombra que encontrámos. Decidimos logo ali que o ideal seria pedalar apenas até à cidade mais próxima, dormir a sesta e começar o dia seguinte bem cedinho.

O nosso segundo dia no Kansas começou pelas 6h45 (um pouco atrasado novamente), mas a temperatura estava ideal e fomos pedalando, nas primeiras horas a uma média de 15 km por hora. O pior veio depois, às dez da manhã já estavam 30 graus e o vento começou a soprar de forma violenta na nossa direcção. Ao meio dia estavam 47 graus, o vento soprava quente contra nós (parecia um secador gigante) e eu senti que não conseguia pedalar nem mais um quilómetro. Fomos continuando até encontrar uma sombra, pedimos água na casa mais próxima e autorização para descansar debaixo das árvores. Dormimos a sesta, a suar as estopinhas, claro, e às três da tarde voltámos à estrada. Com temperaturas tão elevadas, em menos de nada a água transforma-se num chá. Cada vez que uma nuvem, rara, tapa o sol é um alívio. Em terreno praticamente plano, a luta com o vento torna o percurso tão difícil como subir uma montanha. Felizmente existem anjos e o Ted foi um deles, por duas vezes parou a sua carrinha, deu-nos dois litros de água fresca a cada um e uns pós equivalentes a gatorades para misturar na água, que utilizámos imediatamente. Por volta das seis da tarde o céu começou, finalmente, a encher-se de nuvens que taparam o sol impiedoso e nos permitiram pedalar com um pouco mais de força. Chegámos a tempo de tomar um banho rápido nos balneários da piscina municipal de Larned, e encontrar abrigo num pavilhão com mesas para escapar à tempestade violenta que entretanto caiu sobre a cidade.

Decidimos então parar para um dia de descanso, já que nenhum de nós se sentia em condições para continuar no dia seguinte. Este dia afinal transformou-se em dois, já que o Pedro ficou com febre, provavelmente causada por uma insolação. Ainda assim Larned foi um bom sítio, com uma piscina para gozar, com um escorrega e uma aula de aqua zumba incluídas, biblioteca com AC e internet rápida e um bom supermercado.

No segundo dia de paragem começaram a chegar outros ciclistas, a Alex e o Andy (lookmumnocar), um casal inglês de quem já tínhamos ouvido falar, ainda na Virginia, os gémeos Tom e Joe do Arizona, e o Garry (gilhaney), da Irlanda, e foi bom partilhar experiências e conselhos sobre a estrada.

Finalmente, depois da recuperação dos dois membros deste casal estava na hora de seguir viagem, desta vez até Bazine. A parte da manhã foi fácil, especialmente porque durante 20 km o vento esteve pelas costas. A partir da uma da tarde voltou o secador gigante e foi com grande esforço, e com a impressão de estar a assar num forno que chegámos ao nosso destino. Aí, depois de um banho refrescante, fomos jantar com o irmão da nossa anfitriã e tivemos oportunidade de participar num estudo da Bíblia (que aqui é levada num sentido muito literal e com amplo grau de adoração).

No dia seguinte foi a minha vez de acordar mal disposta, provavelmente por causa da água que andamos a beber. Eu sei, devia ter aprendido a lição na Pensilvânia (ui parece que foi há uma vida atrás), mas a verdade é que não há alternativa, ou por outra, a alternativa é não beber água e as consequências seriam muito piores. Assim decidimos fazer um dia mais curto e ficarmo-nos por Ness City, uma cidade a 20 km de distância. Confesso que depois de tantas expectativas sobre os quilómetros que esperávamos fazer diariamente, num terreno plano, as forças da Natureza parecem conjurar para nos mostrar a nossa fragilidade.
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We tought taht Kansas would be the ideal terrain for two weak bikers like ourselves, flat, dry and warm. The warnings about this state started coming through other cyclists, it was too windy, too hot and with boring landscapes. On the other hand it was supposed to have the friendliest people in the United States. With all this in mind, and after a day of rest we started the day around 9:30 (a little late), with a hopeful tail wind in the first six miles. We changed directions and the fun went away to give place to a small fight between us and the wind blowing sideways and a little forwrad. The second problem came after we went to a supermarket to buy some food. When we came out it was noon and the temperature was now around a 100 degrees. Ahead of us a road without any shadows in the open, split between hay fields, corn fields and wheat fields. The temperature was rising and the sun was brutal. At one point I (Sara) felt like in a video game, seeing my energy bar to decrease, so we stopped to eat something. At this point Pedro started feeling bad and so we went, pedaling slowly until the next shade that we could find. We decided right there to just ride to the nearest town, take a nap and start the next day very early.

Our second day started at 6:45 a.m. (a little late again), but the temperature was perfect and we were riding in the early hours at an average of 9 miles per hour. The worst came later, at ten am the temperature was already in the 90 degrees and the wind began to blow violently towards us. At noon it was 105 degrees, the wind was blowing hot against us (like a giant hairdryer) and I felt that I could not ride another mile. We continued until we could find a shade, ask for some water in the nearest house and permission to take a rest under the trees. We took a nap, sweating as hell, and at three in the afternoon we returned to the road. With such high temperatures, in less than nothing water becomes tea. Every time rare cloud covered the sun was a relief. In almost flat terrain, the fight with the wind makes the course as difficult as climbing a mountain. Fortunately there are angels and Ted was one of them, twice he stopped his truck, gave us two liters of fresh water each and some powder equivalent to Gatorade to mix in water, which we used immediately. Around six o’clock the sky began, finally, to be filled with clouds, that stopped the merciless sun and allowed us to ride with a little more force. We arrived in time to take a quick shower in Larned city swimming pool, and to find shelter in a pavilion, to escape the violent storm which fell on the city.

We decided to stop for a rest day, since none of us felt able to continue the next day. The rest day transformed into two, since Pedro had some fever probably caused by too much sun. Larned was a good place, with a pool to enjoy, with a slide and an aqua zumba class included, a library with AC and fast internet connection and a good supermarket.

On the second day of stop other bikers began to arrive, Alex and Andy (lookmumnocar), an English couple of who we had already heard in Virginia, the twins Tom and Joe from Arizona, and Garry (gilhaney), from Ireland. It was good to share experiences and some advice on the road.

Finally, after the recovery of both members of this couple it was time to continue the trip, this time to Bazine. The morning was easy, especially since over 12 miles we had a tail wind. After one o’clock the giant hairdryer strted again and it was with great effort, and the impression of being in an oven to bake, that we reached our destination. Then, after a refreshing shower, we went to dinner with the brother of our host and we had the opportunity to participate in a Bible study (which here is taken in a very literal sense, with a large degree of worship).

The next day it was my turn to wake unwell, probably because of the water we’re drinking. I know, I should have learned my lesson in Pennsylvania (which seems that it was a lifetime ago), but the truth is that there is no alternative, or otherwise, the alternative is not drinking water and the consequences would be much worse. So we decided to make a shorter day and dragging to Ness City, a town 12 miles away. I confess that after so many expectations about the miles we expected to do daily, on flat ground, the forces of nature seem to conjure up to show us our weakness.

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3 pensamentos sobre “Os dias difíceis no Kansas | Hard days in Kansas

  1. HI Sara and Pedro,
    Cathie from Rockville, MD here. Have been following a bit and reliving the memories of my trip on the TransAmerica Trail 2 years ago. You bring back many memories. I remember Kansas well and feel the seem as you about the experience.

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