Aos pés do vulcão Cotopaxi | At the foot of Cotopaxi volcano

O nosso desejo por uma viagem mais aventureira começou logo por duas noites num hotel a pouco mais de 20 quilómetros de Tumbaco na pequena cidade de Sangolqui. Eram duas da tarde quando chegámos ao centro histórico e para onde quer que olhássemos o céu revelava-se terrivelmente ameaçador. Atempadamente a chuva começou a cair torrencialmente durante três horas sem parar, enquanto a víamos confortáveis da janela do quarto que dava para a praça principal.

As previsões eram iguais para o dia seguinte e o Luciano e a Sol tinham decidido juntar-se-nos, mas estavam atrasados, pelo que decidimos ficar mais um dia e aproveitar para comemorar o nosso aniversário de namoro. Já a chuva que se esperava não chegou a aparecer, com excepção dos escassos aguaceiros que todas as tardes costumam cair nesta região.

Dois dias depois a aventura começava em direcção ao Parque Nacional de Cotopaxi, cujo caminho mais directo implicava amplos quilómetros sobre empedrado, uma experiência que já tínhamos tido, e odiado, na Guatemala, mas resolvemos arriscar uma vez mais por conselho do Santiago. E ainda bem que o fizemos!

Saímos de Sangolqui ainda sem os argentinos, mas encontrámo-los a meio do caminho, que quando ainda em alcatrão tinha subidas matadoras, e depois de se transformar em pedra solta foi ficando mais suave mas ainda assim difícil. Eu (Sara) acho que consegui bater o meu recorde de andar devagar, a apenas 3,2 Km/hora, e isto sem cair, pelo menos nessa altura. O ambiente era tranquilo, com pequenas aldeias, pastores, vacas e ovelhas e se passavam quatro carros por hora era muito. Três pararam, os dois primeiros para nos dizerem que tinham sítio onde podíamos passar a noite, o último para meter conversa, tendo acabado por nos arranjar uma quinta onde podíamos acampar de graça.

A noite passou fria e de manhã, por entre as nuvens já conseguíamos ver o cume nevado do vulcão Cotopaxi, o mais alto vulcão activo do mundo, com cerca de 6.000 metros. O objectivo do dia era chegar à entrada norte do parque, a 16 Km de distância e 3.700 metros de altitude.

O caminho continuava a ser em empedrado (em muito melhor estado que na Guatemala), algumas vezes bastante íngreme, o que por vezes nos obrigava a sair da bicicleta para empurrar, e quando conseguíamos pedalar, seguíamos a velocidades estonteantemente baixas. Para compensar, a paisagem ia melhorando a cada curva, desde a ponte sobre o rio gelado com pequenas trutas, às pastagens cheias de vacas ou cavalos, uma estrada ladeada por eucaliptos e pinheiros a fazer lembrar Portugal, a quase total ausência de carros, agora que tinham acabado as pequenas aldeias pelo caminho, e a ponta do vulcão, ora coberta de nuvens ora mostrando-se esplendorosamente, quase ao mesmo ritmo a que púnhamos e tirávamos casacos ao longo do passeio.

Finalmente acabaram as pedras, começou a terra batida e a estrada estreita abriu-se numa imensidão de terreno quase plano, em múltiplas pastagens, a fazer lembrar o Wyoming nos Estados Unidos, desta vez sempre com o vulcão enorme em fundo, e o caminho a percorrer à vista, o tipo de imagem que vêm nos livros sobre cicloturismo e que me inspiraram a fazer esta viagem.

De repente, subimos por uma curva mais íngreme e estávamos no páramo, um tipo de paisagem andina, onde praticamente não há árvores e a vegetação é especial pois tem que conseguir suportar temperaturas baixas, ventos fortíssimos e o Sol muito de perto. É incrivelmente bonito mas ao mesmo tempo difícil. A altitude começou a dar-me uma pequena dor de cabeça e sentia o ar escassear de cada vez que respirava, facto que não parecia afectar os meus companheiros de viagem.

Às tantas passámos por um pequeno curso de água, e estando já perto do destino e com pouca água, resolvemos filtrar ali mesmo uns quantos litros, preparando-nos para a noite.

Finalmente chegámos e obtivemos autorização dos guardas para acampar, primeiro numa parte mais baixa abrigada do vento, e depois junto a umas casinhas e árvores em terreno não tão aberto. Uma vez mais comprovámos a nossa sorte, tivemos apenas tempo para montar a tenda e abrigar-nos debaixo de um pequeno alpendre, antes de começar uma violenta chuva de granizo.

Mais tarde o tempo abriu, os argentinos fizeram uma fogueira para nos aquecermos e eu perdoei à lua cheia o facto de deixar o céu pouco estrelado e adormeci a pensar que há poucas coisas mais bonitas que uma montanha à sombra da lua.

Mas o melhor ainda estava por vir, aquela hora mágica adorada pelos fotógrafos, o nascer do Sol. O Pedro despertou(-me) ainda o Sol não tinha nascido e bastou-me espreitar para fora da tenda para perceber que tinha que vestir o casaco e sair a explorar as redondezas. O dia amanhecia sem nuvens, o vulcão estava magnífico e as montanhas em redor beneficiavam da luz matutina.

O vento soprava gelado enquanto fazíamos o pequeno-almoço e levantávamos campo e uma vez mais fomos filtrar água para a viagem. Uma senhora, Marina de seu nome, meteu conversa connosco e soubemos que para chegar ao seu local de trabalho, ali mesmo num quiosque ao lado, onde vendia gorros, águas e refrigerantes, tinha que apanhar um autocarro às seis da manhã e depois caminhar hora e meia serra acima.

Deitámo-nos no chão ao Sol antes de sairmos para aquecer, tirámos mais fotos ao vulcão e fomos subindo, desta vez por estradas de terra batida, pelo páramo, muito gradualmente até aos 3875 metros de altitude, eu ainda com dificuldades de respirar nas subidas mais puxadas, toda a gente a vestir-se e a despir-se, consoante o sol ia aparecendo ou desaparecendo, ou o calor do esforço ia aumentando ou diminuindo.

Finalmente chegámos à estrada principal do parque, já a sua estrela principal estava coberta de nuvens e pouco convidativa a grandes aproximações. Agora era tempo de descer, fugindo à enorme carga de água que se adivinhava. Depois de uma estrada com o alcatrão em mau estado, entrámos em piso acabadinho de pôr e com uma ciclovia, o caminho quase todo a descer e ladeado de pinheiros, quase uma recompensa às anteriores privações. Depois entrámos na panamericana e chegámos à vila de Lasso onde fomos recebidos pelos bombeiros e pudemos tomar um fantástico banho de água quente.

No final do dia mais uma surpresa, as vistas do terraço do quartel, para os vulcões Cotopaxi e Iliniza, iluminados magicamente pelo pôr-do-Sol.

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Our desire for a more adventurous journey started with two nights in a hotel just over 20 kilometers of Tumbaco on the small town of Sangolqui. It was two o’clock when we reached the historic center and wherever we looked the sky turned out to be terrifically threatening. Just in time rain started falling heavily for three hours straight, while we watch it comfortably from our bedroom window overlooking the main square.

The forecasts were the same for the next day and Luciano and Sol had decided to join us, but they were late, so we decided to stay another day and celebrate our dating anniversary. The expected heavy rain didn’t actually show her face, with the exception of some few showers that fall every afternoon in this region.

Two days after, the adventure finally began towards the Cotopaxi National Park, the most direct way implied some kilometers on cobblestone, an experience that we had in Guatemala, and hated it. However we decided to risk it again on the advice of Santiago. And we’re glad we did it!

We left Sangolqui without the Argentinian, but we met them halfway. While we were still in the tar we had some killer climbs, and when it turned cobblestone the gradient become easier but it was still hard. I (Sara) think I beat my slow record at just 3.2 km/hour, and this without falling, at least at that time. The space around us was very quiet, with small villages, shepherds, cows and sheep and there were probably only four cars per hour passing. Three of them stopped, the first two to tell us they had place where we could spend the night (paying), the last one to talk a little bit and latter he came back and said we could camp for free on a farm nearby.

The cold night passed and in the morning, through the clouds we could already see the snowy summit of Cotopaxi Volcano, the highest active volcano in the world, with about 6,000 meters. The aim of the day was to reach the north entrance of the park, 16 km away at 3700 meters of altitude.

The road was still cobblestone (but in much better condition than in Guatemala), sometimes quite steep, which forced us to leave the bike and push, and when we could ride we kept the stunningly low speeds. To compensate, the landscape was improving at every turn, from the bridge over the frozen river with small trout, big fields of pastures for cows or horses, a road lined with eucalyptus and pine trees that reminded us of Portugal, the almost total absence of cars, some tiny little villages along the way, and the tip of the volcano, sometimes covered with clouds sometimes showing up brightly at about the same intervals at which we put coats and took them off along the ride.

Finally the cobblestones were over, and the dirt path began, sometimes with a narrow road, others it opened in a nearly flat land immensity, with multiple pastures and fields, that reminded us of Wyoming in the United States, this time we could always look at the huge volcano on the background, that sort of image you see on books about touring, and were very inspiring to make this trip.

Suddenly, we climbed a steeper path and after the curve there was the paramo, a type of Andean landscape, where there are virtually no trees and the vegetation is special because it has to be able to stand low temperatures, strong winds and the sun very close to it. It is incredibly beautiful but at the same time hard. The altitude began to give me a little headache and I felt the air running out at each breath, something that did not seem to affect my travel companions.

On the we passed a small stream, and as we were getting close to our goal and were running out of water, we decided to filter right there a few liters, preparing for the night and the next day.

Finally we arrived and got permission to camp, first in a lower opened part of the paramo kind of sheltered from the wind, and then next to some houses and trees who gave as more protection. Once again we proved our luck, we just had time to set up the tent and shelter ourselves under a small porch before a violent hailstorm began.

Later on the Argentines built a fire for warmth and I forgave the full moon that was leaving almost no stars on the incredible open sky and fell asleep thinking that there are few things more beautiful than a big mountain on the shadow of the moon.

But the best was yet to come, that magical time worshiped by the photographers, the sunrise. Pedro awoke while the sun was about to come out and it took just a peek out of the tent to realize that I had to put my coat on and go explore the surroundings. The day dawned cloudless, the volcano was magnificent and the surrounding mountains profited by the morning light.

The wind blew cold as we made breakfast and we packed up once again and filtered more water for the journey. A lady, Marina was her name, started chatting with us and we found out that to get to her working place, right there next to a kiosk, where she sold hats, water and soft drinks, she had to take a bus at six in the morning and then walk an hour and a half up the mountain.

We lay in the sun before we left to warm up, we took more pictures to the volcano and went up, this time by dirt roads, through the, very gradually up to 3875 meters of altitude, I was still having a hard time breathing as I had to do some more effort, everybody stopped a lot to dress and undress, as the sun was appearing or disappearing, or the body heat was increasing or decreasing.

Finally we reached the park main road, and its main star was covered in clouds and uninviting to major approaches. Now it was time to go down, fleeing the huge load of water that was coming down pretty soon. After a road with tar in poor condition, we entered into fresh and smooth tarmac floor with a bike lane, almost all going down and lined with pine trees, almost a reward to the previous challenges. After we entered the Pan American road and reached Lasso village where we were greeted by the firefighters and had a fantastic hot water shower.

Later in the day another surprise, the views from the balcony of the firefighters headquarters, to the Cotopaxi and Iliniza volcanoes, magically illuminated by the setting sun.

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