O cabrito | The goat

Depois de um dia meio adoentada, que nos obrigou a ficar por Loreto mais um dia, a aproveitar a magnífica hospedagem da Sandra e do Eduardo, levantei-me num ápice da cama, e decididamente arrumámos as coisas e saímos, com pena, mas também com vontade de voltar à estrada, tais eram os dias de paragem que já levávamos. A estrada continuava com as habituais vistas bonitas para o Mar de Cortez, e o nosso destino era a praia de Ligui a uns escassos 40 km.

Tínhamos já saído de Loreto havia duas horas quando a fome se fez sentir, e, olhando para o mapa percebemos que Puerto Escondido seria uma opção, embora implicasse um curto desvio à nossa rota.

Já nos tinha acontecido antes, mas desta vez o encontro não foi desconhecidos, mas sim com o Mason, um ciclista do Colorado que habitualmente anda em parelha com o Adam, da mesma localidade.

Com entusiasmo parámos e saudámo-lo, já que não nos víamos desde Guerrero Negro, e perguntámos pelo seu amigo. Que estava num hotel mais à frente, a aproveitar o wi-fi, com um ciclista argentino. O Frankie, pois claro! Este trio tinha deixado a sua bicicleta durante dois dias em Puerto Escondido para fazer caminhadas na montanha mesmo ali ao lado. Ainda nos sugeriram que fizéssemos o mesmo, mas estávamos decididos a seguir caminho. Como íamos no mesmo sentido juntámo-nos e acabámos a tarde na praia de Ligui, com um belo banho e, pela primeira vez, com a espectacular sensação areia fininha debaixo dos pés, ainda que não plenamente desfrutada tal era o medo de inadvertidamente pisar uma raia. Montada a tenda, feitos a fogueira e o jantar, foi hora de dormir e descansar já que no dia seguinte nos esperava a enorme subida com que todos nos amedrontavam desde que tínhamos entrado na Baja.

Acordámos bem cedinho com a mesma vontade de partir do dia anterior, desmontámos tudo, arrumámos os alforges, mas depois havia a água temperada do mar azul, o sol a brilhar, os olhares tristes dos nossos amigos e o ar mais do que desconsolado do Pedro, e, resolvemos ficar, já que, se temos a sorte de sermos donos o nosso tempo, então também é bom saber aproveitá-lo, gozar o presente e mais dois dias de dolce fareniente.

Desta vez, em vez de amêijoas, os rapazes dedicaram-se à pesca e apanharam três belos peixes que assámos na brasa. Parece que o marisco é abundante, já que os peixes por estas bandas têm sabor de lagosta. Ao segundo dia, enquanto procurávamos nova praia para nos instalarmos, passámos pela pequena aldeia de Ensenada Blanca para comprar mantimentos, e, como que conduzido por um qualquer instinto, o Frankie entrou na aldeia direitinho a uma quinta, onde pôde finalmente realizar o seu desejo de comprar um cabrito para assar numa fogueira naquela noite. Escolheu o cabrito ainda vivo e voltou umas horas depois para o apanhar, já arranjado.

A fogueira começou a ser feita quatro horas antes para termos brasas suficientes para um animal de oito quilos. Já era noite quando cinco ciclistas esfomeados (eu incluída, que nem sequer gosto de cabrito) comeram cerca de cinco quilos de carne, sem qualquer tipo de acompanhamento. O Frankie terminou com um “acho que depois disto vou ser vegetariano”. Com isso e quase uma garrafa de tequila barata partilhada.

A praia estava magnífica, rodeada de montanhas, com um caminho para outra praia ainda mais deserta, e muitos ovos de tartaruga, devidamente assinalados pela organização ambiental local, à espera da saída das pequenas tartaruguinhas para o mar, mas o tempo começou a mudar, e vento, nuvens e chuva convidaram-nos finalmente a partir e a enfrentar a subida da serra, cuja dificuldade se revelou muito menor do que toda a antecipação à sua volta, e que foi abrilhantada pelas magníficas vistas. O pior foi depois, um extenso planalto com vento de frente, que nos fez chegar à pacata Ciudad Insurgentes quase já de noite, e quase já de rastos. Aparentemente semanas de vida boa não são boas para a nossa capacidade física.

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After a day of sickness, which forced us to stay for one more day in Loreto, enjoying the magnificent hosting of Sandra and Eduardo, I got up out of bed very quickly, and decidedly packed things and left. We were very sorry, but it was time to return to the road, such were the days we had stopped. The road continued with beautiful views of the Sea of Cortez, and our destination was the Ligui beach just 40 km away.

Two hours passed since we left Loreto, when we started feeling hungry, and, looking at the map, we realized that Puerto Escondido would be a good option, although it implied a short detour on our route.

It had happened before in a detour, but this time the meeting was with someone we already knew, Mason, a cyclist from Colorado who cycles in pair with Adam, from the same place.

With enthusiasm we stopped and saluted him, since we had not seen each other since Guerrero Negro, and asked for his friend. He was in a hotel ahead, taking advantage of the wi-fi with an argentine cyclist. Frankie, for sure! This trio had left his bike for two days in Puerto Escondido and went hiking on the close mountain. They suggested we should do the same, but we were determined to go. As we were going in the same direction we rode together and we ended the afternoon at the Ligui beach, with a beautiful dive in the waters and for the first time, with the spectacular feeling of thin sand underfoot, even if not fully enjoyed such was the fear of inadvertently step on a manta ray. We set up the tent, made dinner and a campfire and soon it was time to sleep and rest as the next day we should do the big climb that all people told us and frightened us about since we entered the Baja.

We woke up bright and early with the same desire to leave we had on the previous day, dismounted the tent, packed the panniers, but then there was the warm water of the blue sea, the sun shining, the sad eyes of our friends and the even more disconsolated look on Pedro’s face and we decided to stay because, if we are lucky to be masters of our time, then it is also good to know how to enjoy it. And so we embraced the present and enjoyed two more days of fareniente dolce.

This time, instead of clams, the boys dedicated to fishing and caught three beautiful fish that we roast over the coals. It seems that the seafood is plentiful, since the fish around here taste like lobster. On the second day, while searching for a new beach to settle in, we passed by the little village of Ensenada Blanca to buy groceries, and as that conducted by some sort of instinct, Frankie entered the village straight to a farm where he could finally fulfill his desire to buy a goat to roast in the fire that night. He chose the little fellow still alive and returned a few hours later to catch it up, this time ready to roast.

The fire began four hours before, in order to have enough coals for the for the seventeen pounds animal. It was night time when five hungry cyclists (including myself, who don’t even like goat) ate about eleven pounds of meeting, without any side dish. Frankie ended with a “I think after this I will be vegetarian!”, that and a bottle of cheap shared tequilla.

The beach was magnificent, surrounded by mountains, with a path to another even more deserted beach, and many turtle eggs clearly marked by the local environmental organization, awaiting the departure of small turtles to the sea. But the weather began to change, and wind, clouds and rain finally invited us to leave and face the climbing, whose difficulty proved much smaller than all the anticipation around it, and that was enlivened by the magnificent views. The worst was after that, an extensive plateau with a head wind, which made us arrive at Ciudad Insurgentes almost at night time, and very very tired. Apparently weeks of good life are not good for our physical capacity.

 

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3 pensamentos sobre “O cabrito | The goat

  1. o cabrito devia estar magnifico, até faz crescer agua na boca.Bom proveito,a gastronomia Mexicana é uma delicia,espero que o Pedro traga algumas receitas.Um grande beijo para ambos.

  2. This journey sounds magical and your beautiful words make me eager to get back on the road! Much love, happiness and adventure to you both xx

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