Especial de vulcão | Vulcan special

Amecameca foi uma inesperada surpresa, pequena e pitoresca. Chegámos tarde a ponto de, após nos refrescarmos, sairmos do nosso quarto do Hotel San Carlos na praça principal da vila já de noite. A Sara havia-se queixado de não se sentir bem no dia anterior à nossa partida da Cidade do México, e a prova do dia tinha deixado sequelas. Chegados ao cair da noite ainda na bicicleta, ela estava muito mais sensível ao frio do que eu, e uma febre morna e ossos gelados clamavam por um caldo quente. Nada melhor que a especialidade local, o Pozole. Ainda fomos à procura de um pelos diversos recantos da praça, mas a nossa busca revelou-se infrutífera, pelo que regressamos ao nosso hotel em auxílio. No restaurante em frente encontrámos não o Pozole mas uma simpática rapariga que só faltou pegar-nos pela mão até ao estabelecimento da concorrência onde estava a tão desejada sopa. Foi comer e ir dormir.

Na noite a Sara não recuperou o suficiente, e vimo-nos obrigados a ficar um dia mais, aproveitado para relaxar da grande cidade lendo, ora no quarto, ora na antiga estação de autocarros transformada em café/pastelaria/restaurante com muito boa pinta. Nos entretantos abastecemos-nos para a prova de montanha que se aproximava, incluindo um Shiraz do Chile para comemorar a escalada, depois de feita. Para compensar a manhã e tarde de gastos ligados ao ócio, jantámos noodles no quarto e na manhã seguinte iríamos escalar até ao passe de Cortez, “desse por onde desse” (palavras da Sara).

Pela manhã encaixámos tudo nas binas e carregados com comida, água e vinho, para além do peso habitual, lá nos dirigimos para Ameca passando por baixo do icónico arco que sinalizava a estrada que levava os viajantes de Veracruz até à cidade do México. Saímos tarde, pelas 11 horas, e a primeira hora e picos foi de uma subida moderada, através de campos numa estrada bucólica, cujos vulcões em pano de fundo ofereciam um toque de excitação. Na base da encosta encontra-se a aldeia de San Pedro Nexapa  e a partir deste ponto  a subida transforma-se gradualmente numa parede, e enquanto os primeiros 7 quilómetros foram feitos em 45 min, passado um hora, quando parámos para almoçar havíamos feito apenas mais 4 quilómetros. Estávamos abaixo dos 3000 metros ainda e se queríamos chegar ao passe a meta estava a 3700 metros. Na verdade só faltavam 16 km. A partir desse ponto a subida foi pontuada por frequentes paradas e, quanto mais alto mais frequentes, a tal ponto que decidimos começar a procurar um local onde montar campo, 5 quilómetros aquém do cume. Enquanto pedalávamos  em direção à estratosfera o oxigénio tornava-se mais escasso e a condição gripal da Sara oferecia-lhe uma indelével dor de cabeça.

O sol baixava e tínhamos respeito ao frio que viria com a noite. Assim que encontrámos o sítio ideal, estávamos exaustos e o México deixou-nos com pouca prática de acampar. Mesmo assim conseguimos montar campo, comer e arrumar tudo, cumprindo todas a tarefas necessárias mesmo ao cair do pano. Assim que entrámos nos sacos-camas, lá fora o frio caía vertiginosamente. E nós exaustos contávamos graus decrescentes como quem conta ovelhas.

Na manhã seguinte acordámos após uma noite tranquila e sem sobressaltos (além dos pequenos despertares naturais de não haver dormido numa tenda e num local desconhecido há demasiado tempo,  para apenas constatar o frio que estava lá fora) com o nascer do Sol. O termómetro marcava, dentro da tenda, –0,6 ºC mas felizmente já se encontrava na fase ascendente sob o ímpeto dos raios que conseguiam atingir o solo por entre a copa das árvores. Um amanhecer belo de tão duro e frio. Já sentíamos falta de acampar longe de tudo, perto de um regato e sob o véu dos pinheiros era o recomeço perfeito. Tardámos de novo a arrumar tudo: o frio é uma medida da velocidade das partículas – mas mais ambientados à altitude e reestabelecidos chegámos ao cume sem grande queixas, permitindo-nos observar as mudanças de vegetação, flores de diferentes cores mudavam com a altitude. Do topo as vistas do Popo fumegante, e da sua eternamente adormecida Iztaccíuatl, dominavam o ponto mais alto da nossa montanhosa etapa. Ali ficámos largos minutos admirando o vento implacável e a amplitude do espaço. Conversámos com um casal de enfermeiros do exército que gostam também de viajar em duas rodas, mas assistidas por motor de combustão. Partimos para a mais dura descida da nossa viagem até à data. 14 km num desnível de cerca de quilómetro e meio em terra batida, ponteados por pedras e areia solta faziam-nos doer os punhos. De tanto em tanto éramos obrigados a parar para que os aros e as borrachas dos travões não evaporassem. Mas assim que chegámos ao final, a estrada era boa e a pendente ainda negativa era bem mais relaxada e demorámos pouco mais de uma hora a fazer os restantes 25 km, passando por Cholula até Puebla, onde o Armando nos iria receber.

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Amecameca was an unexpected surprise, small and quaint. We arrived late and after settling in our room at Hotel San Carlos in the main square of the village, it was already dark . Sara had complained of not feeling well the day before our departure from Mexico City, and the ride of the day had left sequels. Arriving at nightfall still on the bike, she was much more sensitive to cold than I, and a low fever  and icy bones clamored for a hot broth. Nothing better than the local specialty, the Pozole. We went looking for it in every corner of the square, but our search proved fruitless, so we returned to our hotel in aid. At the restaurant across the hotel we did not find the Pozole, but instead a nice girl that almost grabbed us by the hand to a nearby establishment where the desired soup was served. It was time to eat and go to sleep.

During night time Sara had not recovered enough, and we were forced to stay another day, harnessed to relax from the big city we spent time reading, either in the room, or in the old bus station transformed into coffee/pastry/restaurant with very good vibe. In the meantime we catered for our approaching mountain stage, including a Shiraz from Chile to celebrate the climb, once completed. To compensate for the morning and afternoon of spending due to idleness, we had noodles for dinner in the room and the next morning we would climb up to the pass of Cortez, “whatever happens” (in Sara’s words).

In the morning we fitted everything on the bikes and loaded with food, water and wine, besides the usual weight, there we headed towards Ameca passing under the iconic arch that signaled the road that led travelers from Veracruz to Mexico City. We left late, at 11 am, and the first hour was through a moderate climb through fields in a bucolic road and volcanoes whose backgrounds offer a touch of excitement. Lying at the base of the hillside village of San Pedro Nexapa and from this point on the climb gradually becomes a wall, and while the first 7 km were done in 45 min, after an hour, when we stopped for lunch we had done just 4 km. Were below 3000 meters and even if we wanted to get to the pass, the goal was 3700 meters high. In fact we were only 16 km away. From this point the climb was punctuated by frequent stops and the higher we got, the more frequent they become, to the point that we decided to start looking for a place to setup camp, 5 kilometers before the summit. As we pedaled towards the stratosphere oxygen became scarce and Sara’s flu condition offered her an indelible headache.

The sun sank quickly and we respected the cold that would come with night. Once we found the place to stay, we were exhausted and Mexico left us with little camping savvy. Still we managed to set up camp, eat and pack everything, fulfilling all the tasks necessary before the curtain fell. As soon as we entered the sleeping bags, outside the temperature dropped precipitously. As we were exhausted we counted diminishing degrees as who counts sheep.

The next morning we woke up after a smooth and peaceful night with the rising sun (apart from small natural awakenings due to not having slept in a tent in an unknown place for too long, only to realize how cold it was outside). The thermometer marked -0.6 º C inside the tent, but fortunately it was already in the ascending phase under the impetus of the sunrays that reached the ground through the treetops. A beautiful sunrise hard as cold. We had missed camping away from it all, close to a stream and under the veil of pine trees was a perfect restart. We took some time to put everything togheter: the cold is a measure of the velocity particles – but more acclimatised to the altitude and resettled we reached the summit without major complaints, allowing us to observe the changes of vegetation as flowers of different colors changed with altitude . From the top the views of steaming Popo, and his eternally asleep Iztaccíuatl, dominated the highest point of our mountain stage. We stayed there several minutes admiring the relentless wind and breadth of space. We talked to a couple of army nurses who also like to travel on two wheels, but with assisted combustion engine. We left for the toughest descent of our trip to date. 14 km and a descent of about one kilometer on a dirt road, dotted with rocks and loose sand, made our fists hurt. From time to time we had to stop so that the rims and brake pads would not evaporate. But once we reached the en , the road was good and the pending, still negative, was more relaxed and it took us little more than an hour to do the remaining 25 km, passing through Cholula to Puebla, where Armando would receive us.

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